A
porta da torre que se elevava com um sólido esplendor sobre o rio Black se
abriu quando Edward se aproximou, o que contribuiu a reforçar nele a impressão
de que estava em casa. No futuro, trocaria quatro palavras com o homem que se
encarregava de vigiar a porta, já que era uma temeridade extrema abrir Swan a
um cavalheiro não identificado e a sua comitiva, embora seus homens ainda
estivessem bastante atrasados. Inclusive Seth, que cavalgava com ele, tinha
ficado atrás quando Edward tinha fustigado seu cavalo para que corresse mais
veloz que o vento à medida que se aproximava de Swan.
Edward
entrou a galope na esplamada, e uma vez dentro, freou em seco o cavalo, e pela
primeira vez em numerosos dias, o castelo de Swan deixou de ocupar seus pensamentos
por completo. Possivelmente casar-se não ia ser uma tarefa tão árdua, depois de
tudo.
Ela
permanecia de pé, sozinha. O vento esmagava o tecido branco de seu vestido e
brincava com a capa de cor marrom, que ondeava sobre suas costas. Era uma
figura áurea e estilizada, como uma chama singular. Seu luminoso cabelo dourado
caía até os joelhos em umas graciosa trança frisada. Tinha uns traços
delicados, como uma graciosa ninfa, uns lábios não exageradamente carnudos, e
uma pele da cor do mel de flor-de-laranja. Em meio daquele delicado brilho
dourado, destacavam uns olhos castanhos, que pareciam quase negros com o
contraste de sua pele. Foi então quando se fixou na cicatriz que perfilava a
linha de uma de suas sobrancelhas escuras. Parecia muito recente, a julgar pelo
tom rosado no centro. Possuía o aspecto travesso de uma jovem que ainda não era
o bastante amadurecida para desempenhar o papel de mulher adulta, mas que
entretanto se acreditava uma mulher feita e direita. A pesada lã branca de seu
vestido lhe caía lisamente sem manifestar nenhuma proeminência nem deixar
entrever nenhuma das curvas próprias de um corpo feminino.
Era Isabella
de Swan.
Naquele
momento de descobrimento, Edward a desejou com tanto ardor como desejava Swan.
Não tinha querido uma esposa, mas desejava a ela, e se alegrou ao pensar que
muito em breve seria dele. O rei a tinha devotado e ele tinha aceito; o rei
tinha ordenado a Isabella que se casasse, e ela não ia deixar de cumprir a
ordem do rei. Sim, logo seria dele. De maneira nenhuma podiam trocar aquele
designo; antes de que acabasse o dia, ela seria dele.
Isabella
permanecia de pé, sozinha, e subitamente Edward começou a desconfiar. Tinha
entrado sozinho, sem seus homens, e não podia ver nenhum dos homens de Swan.
Parecia uma emboscada perfeita, se isso era o que ela tinha pSamejado, embora Isabella
demonstraria ser uma irresponsável se ousava desafiar ao rei. Aro não era Vladimir,
um rei ao que podia dar as costas quando seus súditos se rebelaram contra sua
vontade. Possivelmente ela desconhecia o aspecto do homem que agora reinava na
Inglaterra.
—Sou
Edward, o Brouillard —declarou sem tirar o capacete — Enviado por Aro II para
proteger Swan e me casar com lady Isabella.
Não
se podia dizer que sua voz fria e monótona fosse alentadora, mas Isabella
sorriu levemente e replicou:
—Seja
bem-vindo, Edward, o Brouillard, lorde de Swan.
Nesse
momento, Seth entrou no pátio a galope, levantando uma grande poeira, e
imediatamente convocou a mão sobre o punho da espada. Então começou a falar pausadamente:
—Edward,
não vejo soldados por nenhuma parte.
Edward
também colocou a mão sobre o punho de sua espada, e a agarrou com força com
seus dedos crispados, protegidos pela cota de malha. Não pensava tirar nenhuma
peça da armadura até que não tivesse a absoluta certeza de que não corria
nenhum risco de cair em uma emboscada. Através da viseira do capacete,
escrutinou o recinto e os portais dos abrigos situados em primeira linha.
—Onde
estão seus cavalheiros, seus escudeiros, milady?
Apesar
de que ela não poderia ver o matiz de desconfiança em seus olhos, podia ouvir o
tom azedo em sua voz.
—Mortos,
milord —se apressou a responder — Todos mortos.
Os
olhos de Edward voltaram a posar-se nela, e perguntou bruscamente: —Quando?
—O
último cavalheiro a minhas ordens morreu faz três meses, milord —respondeu Isabella
com uma voz estranhamente monótona.
Billy,
Emmett e o resto estavam entrando nesse momento no pátio, e o ruído dos cascos
dos cavalos conseguiu apagar quase por completo as palavras pronunciadas brandamente
por lady Isabella. Ela tinha desviado os olhos para escrutinar os rostos dos
homens que acompanhavam ao novo senhor de Swan, como se tentasse medir a
estatura de cada homem, e Edward viu que de repente lhe iluminava o rosto.
Embora
soasse estranho, sentiu-se ciumento. Ao seguir a vista de lady Isabella viu que
ela estava olhando fixamente ao pai Carlisle com uma evidente alegria.
Significava isso que ardia de desejo de casar-se com ele? Mas, se fosse assim,
por que não olhava diretamente a ele?
Rodeado
por seus homens, completamente armados e preparados, Edward baixou a guarda.
Tanto se os cavalheiros de lady Isabella estavam mortos como se não, ele e sua
comitiva tomariam posse de Swan. Aquela era a única verdade pela que sempre se
regia na batalha: vencer.
Subitamente,
Edward sentiu a imperiosa necessidade de que Isabella visse o homem ao que
muito em breve denominaria marido. Queria captar novamente toda sua atenção,
queria que não lhe tirasse os olhos de cima do mesmo modo que ele não podia
afastar a vista dela. Separou a mão do punho de sua espada e tirou o elmo com
uma só mão.
Quando
o novo lorde de Swan tirou o sóbrio elmo de metal, Isabella seguiu seus
movimentos, satisfeita ao ver que finalmente ele tinha decidido abandonar sua
atitude desconfiada e beligerante. Edward tinha conseguido de uma forma
absolutamente efetiva seu propósito: captar a atenção de sua futura esposa por
completo.
Isabella
estudou seu cabelo desgrenhado, muito curto, ao estilo normando. Umas
sobrancelhas, grossas e cheias, arqueavam-se sobre as espessas pestanas que
rodeavam aqueles olhos cinzas azulados. O nariz reto e ligeiramente esmagado na
ponta parecia assinalar diretamente para a ampla boca. Sua tez era pálida e não
levava barba, também segundo a moda francesa. Se não fosse por seu pescoço
grosso e sua óbvia corpulência, teria sido belo. Tal como era, resultava
imponente, majestoso.
Apesar
de Edward tirar o elmo que tinha oculto
seu rosto e que com tal gesto ela assumia uma atitude menos agressiva, seguia
desafiando-a com o olhar silenciosamente, com altivez e orgulho. Isabella não
afastou os olhos dele, nem pestanejou nem se ruborizou nem se moveu nervosa
ante seu aspecto desafiante. Não havia dúvida de que ele a estava desafiando,
apesar de que Isabella não compreendia o porquê, mas decidiu manter a
compostura e não permitir que ele visse sua reação confundida ante sua beleza
varonil, que lhe provocava aquele comichão em todo o corpo. Ele era o novo
lorde de Swan, mas entretanto não lhe resultaria tão fácil converter-se em seu
dono. Isabella não era tão iludida para deixar-se enganar simplesmente por uma
aparência atrativa. Ele possuiria Swan, do mesmo modo que logo possuiria a ela
tal e como mandava a lei e os laços do matrimônio, mas seus pensamentos e seu
coração eram deles e assim continuariam. Swan seria dele; Isabella não, e se
era astuta, ele nunca se daria conta de que ela o evitava. O orgulho masculino
se amansava ante o poder da submissão premeditada com a mesma efetividade com
que as ondas se desvanecem na praia. Assim tinha decidido enfrentar a ele, ao
homem que seria seu lorde antes de que o dia tocasse a seu fim.
Isabella
saudou com uma elegante reverência aos recém chegados.
—Swan
lhes dá a bem-vinda —anunciou com calma, sem elevar o tom de voz — Desmontem e
entrem, e serão atendidos como merecem.
Edward,
tão concentrado como estava na reação de Isabella com ele, que ficou
completamente perplexo ao ver que ela só ficou momentaneamente desconcertada,
olhou a seu redor e viu que dos rincões sumidos na penumbra começavam a sair
alguns homens. Não eram muitos, embora ele não sabia se aquele número escasso
representava a totalidade dos habitantes de Swan. Realmente não havia nada
notável naqueles homens. De fato, quanto mais os observava mais seguro estava
que o único destacável daqueles homens que emergiam dentre as sombras com porte
inseguro era seu aspecto imundo. Seus corpos estavam cobertos por farrapos, e
embora Edward podia entender que não dispunham de outros trajes mais dignos,
não compreendia sua evidente falta de higiene pessoal, dada a proximidade ao
rio.
Seth
estudou o rosto de Edward e seus olhos brilharam zombeteiros, mas quando falou
usou um tom educado.
—E
bem? O que opina o lorde de Swan de seus habitantes?
Edward
soprou brandamente enquanto tirava as manoplas que lhe protegiam as mãos do
frio.
—Opino
que necessitam um banho —respondeu com um grunhido apagado.
—Qual
será o primeiro compromisso que adotará como lorde? Preparar banhos para todos?
Edward
fulminou Seth com um olhar glacial, mas respondeu sem perder os nervos:
—Não
seria uma perda de tempo, e tendo em conta que a partir de agora terei que
estar todos os dias em contato com eles.
Seth
sorriu e desmontou. A seguir entregou as rédeas a um ancião corcunda com as
mãos imundas. Observou como o homem levava cuidadosamente o cavalo para o
estábulo; apesar de toda a imundície, realizava seu trabalho com destreza.
—Pelo menos lady Isabella está limpa. Não
deveria ter motivos de queixa quando estiver todos os dias em contato com ela
—apontou mordazmente.
Edward
não respondeu de forma imediata, mas sim se dedicou a observar novamente à
mulher com a que logo assinaria o contrato de matrimônio. Após de sua bem-vinda
inicial, não lhe tinha dedicado nenhuma outra amostra de atenção; unicamente
parecia ter olhos para um homem, e esse homem era o pai Carlisle. Naquele
preciso instante estava faSamdo com ele, com uma expressão sincera e serena,
inclinada levemente para seu interlocutor de uma forma quase... conspiradora.
—O
que opina de sua falta de cavalheiros, Edward? —continuou Seth enquanto
atravessavam o pátio a pé.
Durante
o trajeto, Edward se dedicou a observar com atenção o pátio do castelo de Swan.
Os abrigos pareciam estar em bom estado, apesar de seu aspecto fosco. A horta
estava em boas condições. No pátio não havia rastro de escombros. A grande
torre, com todo o esplendor de seus quatro andares, impunha-se majestosa. A
maioria das torres tinham dois andares, e algumas exibiam três com orgulho, mas
Swan, sua torre, era um colosso de quatro andares.
—Pelo
menos me alegro de dispor de meus cavalheiros —respondeu a Seth — Até que não
substituamos essa paliçada por uma muralha de pedra, Swan estará em uma posição
vulnerável. Pensava contratar um engenheiro que tinha ouvido falar em Londres,
mas agora me pergunto se não será necessário contratar também mão de obra. Os
homens que vi não parecem bastante fortes para levantar e transportar pedras do
rio.
—A
falta de mantimentos diminui as forças —remarcou Seth suavemente.
Edward
olhou seu amigo e assentiu solenemente. Também ele se fixou que os campos
vizinhos estavam ermos, e que seu aspecto de abandono deixava entrever mais de
uma estação sem cultivo. Sem dúvida, Swan e sua gente tinham sofrido por causa
da anarquia generalizada durante o reinado de Vladimir. Não iriam necessitar
unicamente dinheiro para erigir a muralha, mas também para comer. Entretanto,
aqueles descobrimentos não empanaram o entusiasmo de Edward com respeito a Swan,
a não ser justamente o contrário: acentuaram-no. Swan necessitava um lorde
forte e poderoso para garantir o amparo e sobrevivência daquelas terras e de
seus habitantes. E ele era esse lorde.
Enquanto
conversava com Seth, Edward tinha desviado a vista de forma repetida para Isabella,
que seguia conversando animadamente com pai Carlisle. Apesar de não poder ouvir
o que diziam, os gestos de Isabella eram contundentes. Igual antes, quando ela
tinha permanecido de pé só no meio do pátio para lhe dar a bem-vinda, as
suspeitas de Edward se avivaram como uma fogueira a que acabassem de jogar
ramos secos. Carlisle ia encarregar-se de oficiar a cerimônia matrimonial;
podia ser que ela procurasse sua ajuda para achar a forma de escapar de seu
destino? Ela sozinha tinha estado ao cargo de Swan durante muitos anos, e ele
conhecia de sobra às mulheres para saber que muito poucas cederiam gostosamente
a essa classe de autonomia. Isabella,
igual a todas as mulheres de sua classe, tinha sido criada e educada
para encarregar-se de umas terras ante a ausência de um homem responsável, do
mesmo modo que o tinham treinado para lutar e dar ordens. Isabella de Swan
estava louca se acreditava que poderia impedi-lo de desempenhar seu papel de
dono e senhor daquelas terras; ele mandaria sobre sua esposa da mesma forma que
mandaria sobre Swan, com o apoio incondicional do rei, e a julgar pelo aspecto
deplorável de Swan, provavelmente todos seus habitantes acabariam agradecidos
por sua chegada. Sim, lady Isabella teria que suportar seu escrutínio até que
tivessem trocado os votos matrimoniais, e depois perderia a capacidade para
rebelar-se contra ele. Edward suspirou nervoso ao tempo que a observava
enquanto ela entrava na torre, com seu cabelo trançado agitando-se
graciosamente por cima de seus joelhos enquanto caminhava.
Emmett
não só se fixou no estado dos abrigos e das terras; unicamente se fixou em uma
coisa e não perdeu nem um segundo em expressar suas impressões a viva voz:
—Faz
tanto, tanto tempo que não estive com uma mulher... Como mínimo dois anos —se
lamentou — Quando trouxerem comida para Swan, importaria-lhe trazer também
algumas mulheres formosas?
—Insulta
a seu senhor, Emmett, soltando esse comentário justo no momento em que acaba de
conhecer a que será sua esposa —o corrigiu Seth com seriedade, fingindo estar
ofendido.
Emmett
se ruborizou imediatamente dos pés à cabeça e começou a gaguejar:
—Eu
não... eu não queria dizer... Seth, você sabem que... que lady Isabella é uma
dama realmente bela, absolutamente desejável...
Quando
Edward arqueou uma de suas sobrancelhas negras em sinal de admoestação e Seth
sacudiu a cabeça com pessimismo, Emmett se corrigiu:
—Não
estou dizendo que... que deseje a lady Isabella ou que a encontre atrativa...
Edward
arqueou a outra retrocedendo ante o insulto direto.
—Não!
Quero dizer que... que ela se converterá em sua esposa! —desculpou-se Emmett
elevando nervosamente a voz.
Ao
ouvir aquelas palavras, Edward sorriu levemente e se deteve no portal da torre.
—É
certo —disse simplesmente. Então, enquanto seus olhos cinzas escrutinavam a
escuridão da escada, acrescentou calmamente — E chegou a hora de confirmar se
lady Isabella está de acordo com nossas iminentes bodas.
Subiu
a escada circular devagar e com dificuldade, embutido como ia na armadura de
metal. Atravessou o celeiro que ocupava a pSamta principal até que chegou ao
amplo salão do primeiro andar. Edward gostou do que viu. A estadia ocupava o
primeiro andar em sua totalidade e estava bem iluminada graças às frestas. O
fogo chispava na imponente lareira, propagando um calor que esquentava a gélida
estadia de pedra. As tábuas de madeira do assoalho estavam em bom estado, os
juncos entrelaçados formavam uma esteira polida e limpa. Justo atrás da enorme
mesa senhorial, impecavelmente coberta com uma toalha de linho branca, uma
enorme tapeçaria no que se via um cavalheiro com armadura debaixo da sombra da
Santa Cruz se agitava levemente de forma esporádica com a brisa que se filtrava
através das frestas. Descrevendo uma linha com o passar do perímetro da estadia
se podiam ver mesas e banquetas para que os soldados e os serventes pudessem se
acomodar sem aperto algum, era o lugar que ele sempre tinha ocupado antes. Até
aquele dia. Entretanto, a partir daquele dia, seu lugar seria na mesa
principal.
Novamente
procurou Isabella. Ela tinha se afastado de pai Carlisle para iniciar uma nova
conversação, desta vez com um servente que, por sua aparência, devia ser o
mordomo do castelo. Edward atravessou a estadia para falar com pai Carlisle.
Queria saber do que tinham falado e queria saber imediatamente. Tinha que acabar
com aquela incerteza que o consumia.
Sem
elevar a voz, exigiu de forma cortante ao padre:
—Mantiveste
uma conversação muito longa com lady Isabella. Procurava ela seu conselho sobre
como evitar este matrimônio?
Pai Carlisle
não pode ocultar a faísca de brincadeira de seus olhos quando olhou Edward, embora a verdade é que tampouco
pretendia ocultá-la.
—Não.
Edward
não se sentiu satisfeito ante a breve resposta e insistiu:
—Está
tentando atrasar a cerimônia? Porque não haverá nenhum atraso. Não penso descansar
até resolver este trâmite...
—Não,
Edward, não falamos de matrimônio —o cortou Carlisle com um sorriso.
—Se
é que ela queria saber algo sobre o homem com o que vai se casar, o melhor
teria sido que...
—Edward,
não falamos de ti —o interrompeu Carlisle com um amplo sorriso.
Edward,
o Brouillard, conhecido em três continentes por sua habilidade, seu orgulho e
galhardia, olhou o padre visivelmente desorientado.
—Lady
Isabella me rogou encarecidamente que oficie uma missa pelos mortos. —Ao ver
que Edward assentia com gesto perplexo, acrescentou — Disso falamos, e de nada
mais.
—Então
será melhor que oficie uma missa o quanto antes —respondeu Edward com
serenidade, recuperando a compostura.
Carlisle
assentiu com aquiescência, procurando ocultar a risada.
Nesse
instante se aproximou Seth, e Edward se voltou para ele, aliviado de poder
resolver aquela conversação com pai Carlisle. Ambos examinaram lentamente o
salão. Não era a estadia em si o que ocupava seus pensamentos agora, a não ser
os habitantes de Swan. Os serventes se moviam energicamente, obcecados em seu
trabalho, faSamdo e murmurando e dando ordens uns aos outros sem ao menos
respirar. Seth se fixou na reação de Edward com supremo interesse. As palavras
de Emmett eram certas; ali não havia nenhum homem nem nenhuma mulher que
tivesse menos de quarenta anos, e além disso, todos exibiam um aspecto
deplorável: cheios de imundície e com farrapos tão rígidos por causa da sujeira
acumulada durante meses, ou possivelmente inclusive anos. Também levavam os rostos
tão sujos até o ponto de oferecer um aspecto sarnento, e tinham as unhas
enegrecidas em vez de brancas.
Os
serventes de Swan pareciam mendigos.
Em
troca, o aspecto de lady Isabella era justamente o contrário, e com seu vestido
branco destacava como uma fogueira luminosa no meio de uma noite fechada.
Seth
voltou a olhar Edward com interesse. Em Síria, Armênia, Capadocia e Frigia; na
Antioquia, Edesa e Dorila; desde a Moldavia e Boêmia a Sajonia; nas terras de
Champagne, Valois, e, naturalmente, na Normandia, Edward, o Brouillard tinha
fama por sua habilidade guerreira, seu valor, ... seu esmero. Nas áridas terras
de Damasco, nas que a água era um bem escasso mais prezado que as pérolas e os
homens vendiam seus cavalos por uma mera taça cheia de água, Edward sempre
tinha ido impecável. Não era uma tendência pouco viril, de temor a sujeira
—ninguém que o conhecesse se atreveria a expressar tal acusação — simplesmente
se tratava de que não suportava o abandono nem de si mesmo nem dos que o
rodeavam. Só teria que ouvir como se queixava Emmett dessa obsessão de seu
senhor. E agora Edward possuía terras com uma gente que devia fazer mais de
seis meses que não se banhava. Se Seth tivesse tido um temperamento menos
prudente, teria rido a gargalhadas.
Edward
observou Isabella enquanto ela falava com o mordomo. Era de constituição magra,
com a graça desajeitada da erva crescida baSamçada pelo vento, mas entretanto
podia ver que era toda uma mulher. Não se tratava de sua aparência, porque era
esbelta mas sem curvas, como uma menina, mas sim por sua maneira de
comportar-se. Isabella demonstrava ter o absoluto controle do salão e de seus
serventes, já que no meio daquela atividade frenética, cada um deles olhava sem
falta para ela não uma só vez, a não ser inumeráveis vezes. Frequentemente ela
assentia ou estabelecia contato visual, embora outras vezes não parecia vê-los,
mas entretanto, eles sim que a olhavam. Observando-a, Edward se sentiu de
repente desnecessário.
—O
jantar está servido, milord.
A
voz de Isabella era suave e doce, entretanto conseguiu captar a atenção de Edward
no meio das conversações que alagavam a estadia.
—A
mesa está disposta para que possa relaxar junto com seus homens após a longa
viagem que os conduziu até aqui.
Edward
podia ver como os serventes estavam acabando de depositar umas fumegantes
bandejas sobre a mesa principal, e a taça de prata colocada frente à cadeira
senhorial era uma bela obra de ourivesaria. Não havia nada nas palavras de Isabella
nem em sua atitude que pudesse despertar suspeitas. Ele estava faminto. Seus
homens estavam famintos. Era óbvio que aquele banquete tinha sido preparado com
antecipação a sua chegada. Entretanto, Edward não podia separar de sua mente o
alarme que disparou no mais profundo de
seus pensamentos. Apesar de todas suas doces palavras e de sua cálida
bem-vinda, não confiava completamente na lady de Swan. Havia algo que não
encaixava, e embora agora não sabia do que se tratava, disse a si mesmo que
cedo ou tarde o averiguaria. Até que não soubesse, casar-se com ela era a
melhor opção para evitar uma guerra aberta contra a gente de Swan. Não desejava
iniciar seu poder com uma batalha campal, já que um início tão nefasto
demoraria anos para ser esquecido.
—Sua
hospitalidade nos honra —começou a dizer ele — Entretanto, não desejo atrasar a
cerimônia de nossas bodas que tem que nos unir como lorde e lady de Swan. —Edward
fez uma pausa para sorrir — Sou um dos cavalheiros de Aro, e o rei me enviou
aqui com o fim de que estas terras estejam a salvo sob seu nome, demonstraria
ser um cavalheiro muito ingrato se desse prioridade a minha própria comodidade
em vez de demonstrar uma resolvida obediência às ordens do rei.
Isabella
escutou as palavras sem alterar nem um ápice seus gestos, mas a falta de uma
resposta já supunha uma resposta em si.
—Lady
Isabella —prosseguiu Edward— preparastes um magnífico banquete para seu
prometido. —Fez outra pausa para sorrir, mas seus olhos brilhavam como o aço
incandescente — O aceitarei como nosso banquete de bodas e comerei com minha esposa
a meu lado.
Naqueles
longos momentos em silêncio, Isabella observou Edward, o Brouillard como até
então não tinha feito. Certamente era um bom orador, mas sua frieza era tão
acentuada que não podia ocultá-la; possivelmente não era uma frieza agressiva
que procurasse feri-la, apesar de intuir que ele não duvidaria em defender-se
se se sentia provocado. Parecia um homem forte, dos que não estavam acostumados
a que ninguém lhe contrariasse, um homem que lutaria, embora sem aversão, por
conseguir seu objetivo. Esses eram os pensamentos de Isabella enquanto o olhava
e escutava suas palavras expressas com tanta diplomacia mas que de uma vez
deixavam patentes que ele não pensava comer nesse momento, que não comeria até
que não tivesse a absoluta segurança de que Swan lhe era completamente leal.
Aquela
faceta do caráter do homem que ia governar Swan não a amedrontou absolutamente;
ao contrário, Isabella pensou que seria muito vantajoso, se lhe importava a
prosperidade de Swan. Pelo que a ela correspondia, ainda não tinha ponderado
como ia adaptar-se a aquele caráter.
—Seu
dever é o primeiro, milord, e eu sempre o obedecerei —respondeu Isabella,
inclinando a cabeça graciosamente — Seu aposento vos espera. Quando tiver
despojado de sua indumentária militar e tenha se trocado, encontrará-me no
salão contiguo a seu aposento. Isso, é obvio, se a você isso parece bem.
Edward
teria preferido ir diretamente à capela e assinar os contratos imediatamente,
mas não queria arriscar-se a ofendê-la casando-se com a armadura posta, após a
aceitação por parte dela de postergar o banquete. Contendo sua ansiedade,
tentou sorrir encantadoramente, tal e como tinha aprendido na corte, e
respondeu:
—Agrada-me
que tente satisfazer meus desejos, Isabella, e por conseguinte, eu satisfarei os
seus.
Apesar
da moderação e autocontrole que demonstrava sua iminente esposa, a Edward não
passou desapercebido a leve dilatação de suas pupilas negras ante sua resposta.
Ela era uma moça inocente que não estava acostumada à linguagem sedutora que
usavam na corte, o qual era de esperar, tendo em conta o isolado que se achava Swan,
e ele se sentiu satisfeito.
—Vestirei-me
do modo adequado para acrescentar um toque de distinção à cerimônia que nos
unirá em matrimônio. Não terá que esperar muito.
Isabella
não respondeu. Sentia um tenso nó no peito que lhe espremia os pulmões, por
isso teve que realizar um enorme esforço para respirar. O homem que ia
converter-se em seu dono e senhor era incrivelmente arrumado; seus olhos
brilhavam e cintilavam como o aço recém brunido, e suas delicadas palavras a
embriagavam com o efeito de uma malha de seda. Só esperava que ele não se desse
conta do tremendo efeito sedutor que lhe provocavam suas palavras, já que não
queria que ganhasse o terreno tão rapidamente e com tanta contundência.
Girando-se
lentamente, Isabella rumou para as escadas e depois entrou no quarto de seu
futuro esposo.
O
quarto principal estava localizado justo em cima do salão, mas era a metade de
seu tamanho. A estadia tinha sido dividida no passado em duas habitações: uma,
a do senhor, e a adjacente, onde se achava o salão do castelo. Era uma
disposição incomum. Normalmente o quarto do senhor era uma das maiores e
luminosas estadias, já que, embora a torre fosse ampla, não estava acostumado a
sobrar o espaço. Não obstante, apesar de estar dividida, o quarto seguia sendo
espaçoso. Uma enorme cama dominava a habitação, coberta por uma colcha de um
branco níveo impecável que chegava até o chão, e embora coroada com uma
estrutura de dossel, não dispunha de cortinas, mas isso tinha fácil acerto. No
extremo mais afastado do quarto se achava a lareira, com um fogo que chispava e
que dissipava a fria umidade das paredes de pedra. Frente à lareira havia um
tamborete estofado e uma antiga banqueta belamente cinzelada e sem estofado. Na
parede oposta, perto da entrada à habitação coberta por uma cortina, destacava
uma arca de proporções espetaculares decorada com uns chamativos relevos, e
junto a ela, uma mesa com uma bacia e uma vasilha. Edward assentiu para mostrar
sua aprovação em relação à distribuição, o quarto era amplo, tinha todo o
necessário, e estava limpo.
Antes
que pudesse falar, Isabella retrocedeu para a cortina que revestia a porta do
quarto, era uma forma muito efetiva de frear as correntes de ar que se originavam
com a força de um torvelinho nos estreitos limites da escada da torre. Dois
homens entraram na estadia com uma banheira de madeira e a depositaram frente
ao fogo, assentindo e levando as mãos à testa com uma reverência quando
passaram diante do novo lorde de Swan. Atrás deles se personificou uma fileira
de serventes com baldes de água, e começaram a descarregar a pesada carga na
banheira para a seguir abandonar a estadia rapidamente. Os serventes tinham
duas coisas em comum: todos Samçavam a Isabella um olhar inquisitivo antes de
partir e todos eram sarnentos. Edward não pode evitar fixar-se naquelas duas
particularidades, até que chegou à conclusão de que, com referência à segunda
questão, algo estranho acontecia em Swan.
—Um
banho quente frente ao fogo me cairá muito bem, lady Isabella —apontou ele —
Agradeço-lhe sinceramente que tenha pensado neste detalhe. Levo vários dias
sem poder me banhar —adicionou, olhando
com insistência para último servente que ficava no quarto e que agora se
dispunha a partir.
Isabella
só assentiu, negando-se a seguir os olhos de Edward.
—Durante
minha experiência como cruzado pela Terra Santa aprendi muitas coisas
—continuou, entrando mais na estadia — Os sarracenos, por exemplo,
ensinaram-nos muitas coisas sobre a arte da guerra e também sobre arquitetura
e, para mim foi um prazer tomar consciência da importância que tem a higiene
pessoal. É algo que lhe recomendo encarecidamente.
Isabella
permaneceu em sua postura rígida junto à soleira, e apesar de tom comedido, Edward
percebeu uma nota reprimida na mensagem:
—É
verdadeiramente afortunado, milord, pelo fato de ter aprendido tantas coisas.
Nem todo mundo gozou das vantagens de viajar tão longe em nome de Deus.
Edward,
recordando com vivida claridade a sujeira, a depravação, a fome e a sede, mas
por cima de tudo as mortes violentas das que tinha sido às vezes testemunha e
às vezes verdugo, perguntou-se se ela realmente compreendia o que estava
dizendo.
—Tenho
que adicionar que não fomos muitos afortunados os que seguimos esse caminho em
nome de Deus, e mais, fomos muito poucos os que retornamos —respondeu com um
tom sereno — Por conseguinte, minhas revelações são mais valiosas por ser um
dos privilegiados que pode retornar.
—Uma
interessante perspectiva —murmurou ela.
—Por
isso espero que acabem por compartilhar seus hábitos comigo —disse ele com
moderação, com os olhos cintiSamdo como um tição em chamas— posto que a partir
de hoje compartilharemos o resto de nossas vidas.
Isabella,
encurralada em uma esquina tão literal como simbolicamente, entrelaçou as mãos
em seu colo e assentiu com amabilidade e... à força.
Edward
sorriu antes de prosseguir:
—Meu
desejo, senhora, é que a gente de Swan se banhe, e frequentemente.
—E
assim o farão —respondeu ela serenamente, apesar de que podia notar como lhe
acelerava o pulso. A seguir, fez uma grácil reverência e acrescentou — Deixarei
você sozinho com seu escudeiro para que possa banhar-se a gosto.
E
desapareceu ao tempo que Emmett fazia sua entrada como um torvelinho.
Enquanto
descia pelas escadas, Isabella teve tempo para sossegar-se. Sua estimativa
inicial sobre Edward, o Brouillard tinha sido acertada, e seu segundo encontro
só reafirmava sua conclusão: ele era um osso duro de roer; em seu estilo
adoçado, exigiria que seus desejos se cumprissem a todo custo. Isabella sorriu
levemente para si ao chegar ao último degrau. A chuva caía com veemência e
agora fazia mais frio que quando tinha chegado a comitiva de cavalheiros. As
gotas se estrelavam com força contra o pátio o alagando de barro, salpicando
tudo em qualquer parte. Elevando o traje branco até os joelhos, Isabella se
apressou a andar pega à parede da torre e entrou disparada na cozinha. Existiam
várias formas de tratar aquele indivíduo, e a natureza lhe estava mostrando uma
delas: do mesmo modo que a chuva se chocava contra o chão com força, tentando
trocar sua natureza, assim chocaria-se Brouillard contra ela. Mas, ao final, a
chuva cessou com a primeira rajada de vento e o pátio ficou igual a antes, sem
nenhuma marca nem nenhuma mudança provocada pela água que o tinha atacado
violentamente. E o mesmo aconteceria com eles, e Isabella sairia vitoriosa,
apesar de que a vitória seria discreta.
Não
lhe cabia nenhuma dúvida de que os criados na cozinha estariam nervosos, assim Isabella
entrou esboçando um amplo sorriso, sacudindo a chuva do cabelo com uma
gargalhada jovial. Era melhor que atuasse desse modo, porque em realidade
tinham motivos pelos que estar preocupados.
—Pediu
que nos banhemos, não é certo, milady? —perguntou Eric. É obvio que sabiam o
que havia dito, ao menos em essência, no quarto do senhor. Não existiam
segredos no mundo estreitamente confinado da torre e suas paredes.
—Sim,
expressou seu desejo de que se integre o hábito do banho como uma parte a mais
na vida de Swan —respondeu ela tranquilamente.
—E o
que vamos fazer, milady? —sussurrou Rosalie do rincão oposto da cozinha.
Isabella
sorriu.
—Banharemo-nos,
Rosalie. O senhor de Swan expressou seu desejo, e eu aceitei, tal e como é meu
dever.
Todos
a olharam com preocupação. Tinha sido Isabella quem tinha ordenado que não se
banhassem, por mais imundos que estivessem, e que tão somente lavassem seus
objetos. Não compreendiam como era possível que agora mudasse de opinião tão
rapidamente, após escutar as palavras de um desconhecido que acabava de
atravessar a porta do castelo.
Isabella
se deslocou até a chaminé, e sem perder a calma, ficou removendo o guisado que
se cozia a fogo lento na panela então, e mantendo a mesma calma, remarcou:
—O
que Edward, o Brouillard não há dito é quando se levarão a cabo esses banhos.
Os
sorrisos, lentos ao princípio, iluminaram os rostos dos serventes. Rosalie, em
particular, respirou mais aliviada. Lady Isabella não daria o braço a torcer
tão facilmente, isso já sabiam, mas a evidência do que acabavam de ser
testemunhas os tranquilizou.
Girando-se para Sam, Isabella ordenou:
—O
jantar se atrasa, mas confio em que igualmente será capaz de organizar um
jantar digno de uma celebração.
Antes
de que Sam pudesse responder, Isabella se voltou para Claire.
—Possivelmente
este atraso te dará tempo para preparar uma deliciosa sobremesa com as maçãs, Claire.
—Sim,
é obvio, milady. Agora mesmo porei mãos à obra —assegurou Claire, e se afastou
sem perder nem um segundo.
—John
—disse Isabella — estou preocupada com os ovos. Com tanto atraso ficarão duros.
Não poderia prepará-los...?
—Não
se preocupe senhora, já nos encarregamos disso —respondeu John com calma.
—Obrigado,
John —respondeu Isabella, e então acrescentou no mesmo tom pausado e sereno que
tinha estado utilizando até o momento — Porque tem que ser um jantar especial,
para celebrar meu matrimônio.
Rosalie
se maravilhou da moderação de Isabella, e ao mesmo tempo, em segredo, de seu
rincão escuro, tremeu de medo e angústia.
Volta, volta...
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