Seth
entrou no quarto de Edward sem chamar, um hábito que sabia que logo teria que
abandonar. Emmett estava acabando de vestir Edward e, como de costume, o pobre
escudeiro estava visivelmente nervoso.
A
estadia tinha mudado de aspecto desde que Edward a tinha visto pela primeira
vez: junto à arca que havia inicialmente no quarto, agora havia outra, a arca
de Edward, justo ao outro lado da bacia. E precisamente naquela segunda arca, Emmett
se achava enterrado até seus fornidos ombros.
—Será
melhor que o encontre, moço —murmurou Edward em um tom grave — O encarreguei
expressamente para uma ocasião tão especial como a de hoje.
—Possivelmente
deixaste em Borgoña, quando perdeu a presilha atrás daquela formosa ruiva
—apontou Seth com um tom jocoso.
—Não
perdi a presilha —declarou Edward resolutamente, então acrescentou com um
sorriso zombador — Foi ela a que perdeu a presilha quando parti.
Emmett
elevou a cabeça abruptamente naquele instante com cara de satisfação, segurando
o objeto em questão.
—E
aqui está sua capa, lorde Edward!
Sacudindo-a
vigorosamente, depositou-a sobre os ombros de Edward. Era um objeto magnífico,
verdadeiramente digno de um rei. Forrada com pele de arminho, a capa estava
confeccionada com um brocado de seda branca tão fina que parecia absorver toda
a luz para depois refleti-la sutilmente alterada. A túnica que Edward levava
debaixo da capa era de um cinza furta-cor com fio de prata, e a prega da peça
estava debruada por uma tira acetinada de uma intensa cor carmesim. Seth os
contemplou enquanto Emmett colocava o
impressionante broche com um rubi no ombro direito, para fechar a capa. O rubi
por si só já valia uma boa recompensa, e precisamente assim o tinha obtido Edward:
a modo de recompensa. Era do tamanho do punho de um menino e estava montado
sobre uma base de prata adornada por um belo filigrana. Era uma peça de
artesanato extraordinariamente delicada, inclusive excessiva para o sarraceno
que a tinha levado previamente.
Edward
moveu os ombros várias vezes seguidas para que a capa se acomodasse
perfeitamente a seu talhe. Emmett admirava com fascinação, como sempre, a
elegância natural de Edward. Era certo que Edward prestava uma excessiva
atenção a seu vestuário, mas também era certo que qualquer objeto lhe caía bem.
Seth,
em troca, já fazia tempo que tinha deixado de admirar Edward.
Edward
ordenou a Emmett que abandonasse o quarto e a seguir se aproximou de Seth para
esquentar-se junto ao fogo. Elevando a parte traseira da capa com elegância,
sentou-se no tamborete estofado e deixou a banqueta para seu amigo. Seth não
vacilou em lhe contar tudo o que tinha indagado.
—Interroguei-os
a respeito de sua chamativa sujeira, mas quando veem um desconhecido se
encolhem de medo. —Seth se inclinou para diante, apoiando os cotovelos nos
joelhos — São umas pessoas muito estranhas, Edward; todos estão atemorizados
por algo, tanto os homens como as mulheres.
Edward
se inclinou para diante e seus olhos cinzas interrogaram os escuros olhos
castanhos de seu amigo.
—Conseguiste
saber o que é o que lhes provoca tanto temor, Seth? É mais que evidente que
estes últimos anos foram muito duros para Swan, mas o que é o que pode esmagar
a moral desta gente até tal ponto?
—Meses
sem comida, sem paz, podem afundar inclusive a moral do mais forte, Edward
—respondeu Seth lentamente, recordando o que ambos tinham presenciado durante
suas aventuras como cruzados pela Terra Santa. Edward não necessitava que
ninguém o recordasse, jamais necessitaria que ninguém o recordasse, as imagens
tinham ficado gravadas na sua retina para o resto de seus dias.
—Sim,
é certo —conveio respeitosamente — mas suspeito que esta gente sofreu algo mais
que um simples montão de cabanas arrasadas e más colheitas.
Seth
olhou Edward sem piscar. Os instintos de Edward quase nunca falhavam, e Seth
tinha aprendido a não questionar sua precisão.
—A
que se refere? —interessou-se.
—Não
sei —murmurou Edward, cravando a vista no fogo— mas não ficarei tranquilo até
que Isabella se converta em minha esposa — Elevando a vista subitamente, Edward
perfurou Seth com seu intenso olhar — Não te parece estranho que toda a gente
de Swan esteja tão atemorizada e que em troca sua senhora se mostre tranquila e
sem nenhum sinal de angústia?
—Lady
Isabella é uma mulher com um prodigioso autocontrole —respondeu Seth
simplesmente.
—Suponho
que sim —murmurou Edward, desviando novamente a vista para o fogo, plenamente
consciente de que aquele traço de sua futura esposa lhe fazia agora menos graça
que umas horas antes. Parecia uma mulher fria, com um coração de gelo, uma
característica nada desejável da mulher com a que muito em breve se deitaria —
Ela é de Swan, e entretanto não se comporta como o resto da gente de Swan.
—É
uma dama —matizou Seth.
—Sim,
mas ser uma dama não implica ser tão diferente.
—É-o
no caso de lady Isabella.
—Isso
parece —respondeu Edward brandamente — Entretanto... não estou seguro...
—Teme
que te traia? Que não suporte a ideia de te ceder as rédeas de Swan?
—Que
estranho que utilize a palavra «traição». Não tinha considerado a questão em
tais termos, entretanto, a palavra encaixa com a forma em que começo a ver Isabella.
Mas... que se negue a ceder o castelo de Swan? —repetiu Edward, com os olhos
cintiSamtes — Não, não a temo por isso. Swan me pertence —concluiu com um tom
cortante.
Seth
se recostou no respaldo com os contornos estragados da banqueta de madeira.
—Está
em suas mãos acabar com essa inquietação de uma vez por todas, a dama te espera
no salão, tal e como te prometeu. Só tem que ir ao seu encontro, estreitá-la
entre seus braços e tomá-la por esposa.
—Sim,
tem razão —conveio Edward, e a seguir ficou de pé. Sua capa revoou
graciosamente ao redor de suas pantorrilhas — Só tenho que tomar a Isabella
para afiançar Swan; são duas faces da mesma moeda, não é certo? Já chegou o
momento de acabar com esta incerteza que tanto me incomoda.
Edward
deu a volta e andou para a porta a grandes pernadas com uma firme determinação,
Seth decidiu segui-lo a um ritmo mais pausado. Pai Carlisle e George, o clérigo
que Edward tinha contratado em Londres, esperavam-no junto a uma mesa coberta
com uma bela toalha de cor vermelha. Tudo estava em um silêncio incomum, tinham
afugentado aos cães, os criados se retiraram, e inclusive a chuva tinha cessado
seu cadencioso martelar. Tal e como esperava, Isabella se achava conversando
animadamente com Carlisle. Sem deixar de franzir o cenho, Edward cobriu o
espaço que o separava deles com amplas pernadas.
—Está
seguro de que não precisa descansar um momento antes de oficiar a missa?
Carlisle
estudou o rosto de Isabella e aspirou ar antes de responder. «Pequena
intensidade, e além disso, pequena intensidade reprimida, em um corpo tão
esbelto», pensou. Só fazia umas horas que tinham chegado a Swan, e entretanto
ela não parecia desfalecer na hora de insistir no tema do funeral. Carlisle
teria pensado que o normal em uma jovem às portas de suas bodas seria que o
acossasse com mil perguntas sobre o homem com o que ia se casar, em troca, não
tinha mencionado Edward nenhuma só vez.
Carlisle
afogou um sorriso. Conhecia Edward bastante bem para saber que a falta de
curiosidade que ela professava para ele unicamente conseguiria lhe pisar o
orgulho. Edward tinha gozado de fama de leão entre as mulheres durante muitos
anos e agora esperava que Isabella reagisse igual, Isabella de Swan lhe estava
dando um insuportável golpe, embora Carlisle duvidava de que ela se desse
conta. E ali radicava o problema: ela tratava Edward como alguém que não era
mais que uma inconveniência necessária, um sujeito com o que devia casar-se por
obrigação para logo relegá-lo de novo à escuridão tão rápido como fosse
possível. Realmente era uma forma de se comportar estranha por parte de uma
moça que acabava de conhecer seu prometido, mas Carlisle não era um tipo que
gostava de misturar-se nos problemas alheios. Pensava esperar pacientemente até
ganhar a confiança de lady Isabella. Tão melhor que ela desfrutasse de plena
liberdade para escolher o momento adequado, já que sabia por experiência que da
passividade mais benigna emergiam as confissões mais profundas. Esperaria,
apesar de notar o enorme lastro que ela suportava em sua alma. Carlisle não
comentou nada a respeito, mas perguntou a Isabella uma questão pessoal:
—Sinto-me
em plena forma, lady Isabella. Oficiarei a missa logo que possa, mas se me
permitir, tenho uma curiosidade. —Fez uma pausa para escrutinar seu rosto
novamente, e então lhe perguntou casualmente — O que passou com o padre de Swan?
—Decidiu
acompanhar meu pai na peregrinação —repôs ela.
—Mas
isso foi faz vários anos, não? Quer dizer que não retornou?
—Sim
retornou, com as novas da morte de meu pai, mas faz uns meses sentiu a
necessidade pessoal de peregrinar a Canterbury, e ainda não retornou.
Carlisle
podia notar pelo gesto de Isabella que ela não esperava que o padre retornasse.
A situação era verdadeiramente incomum; nenhuma morada podia funcionar muito
tempo sem um padre. A atitude de Isabella, que até esse momento se mostrou tão
expedita no tema do funeral, era agora abrupta e sutilmente evasiva. Que
estranho!
—Tenho
outra pergunta mais, se não se importar. A quem quer dedicar a missa?
—perguntou-lhe o padre, tentando obter uma resposta mais concisa.
Isabella
baixou a vista para suas mãos entrelaçadas e permaneceu calada um instante. A
seguir, respondeu com um murmúrio, com tanta suavidade que Carlisle mal
conseguiu entender suas palavras:
—A
alguém a quem eu queria muitíssimo.
Apesar
de que Carlisle teve problemas para compreender sua mensagem penalizada, Edward
ouviu com suficiente claridade. As palavras que ela tinha eleito não o agradou
absolutamente. Isabella era órfã; quem podia ocupar um lugar em seu coração
inocente? Só existia uma resposta aceitável: ninguém.
Ao
dar-se conta de sua presença, Isabella se separou um pouco do pai Carlisle e
olhou Edward. Sua insistência no funeral teria que esperar até que tivessem
celebrado a cerimônia nupcial e tivessem assinado os contratos, por isso ela
tinha tanta vontade de acabar de uma vez por todas com aquela formalidade do
contrato matrimonial. Edward, o Brouillard era o lorde de Swan, assim tinha
decretado Aro. Edward possuía Swan, e isso era um fato irrefutável. A cerimônia
do matrimônio seria meramente o selo em um documento que já estava aceito.
Isabella
o olhou sem mostrar alívio nem urgência, a não ser com o sereno controle e
falta de emoção com a que ele associava a sua futura esposa. Podia alguém ser
carinhoso com uma mulher tão fria? Ela não mostrava nenhum interesse por ele,
nem vontade de falar com ele, unicamente aceitava sua presença; ao cabo de uns
segundos, Isabella deu a volta e andou para o mordomo para lhe pedir que
servisse vinho. Seus movimentos eram flexíveis e graciosos até o ponto de lhe
recordar um campo de erva na primavera e, apesar de sua compostura tão fria, Edward
se sentiu atraído pela forma em que se movia. Suas tranças entrelaçadas com fio
de seda se baSamçavam graciosamente cada vez que se movia, e as mechas de cor
dourada pálido capturavam a luz das velas e do fogo.
Carlisle
tinha razão: era uma beleza. Era tal e como os trovadores descreviam a suas
nobres amadas: esbeltas e pequenas e com o cabelo claro, e apesar de seus olhos
possuírem um tom verde escuro em vez do esperado tom azul, Edward pensou que
sua beleza ainda ressaltava mais graça aqueles olhos.
E
ela nem sequer se fixou nele com curiosidade, como faria uma donzela que
olhasse ao homem que desejava. Edward cravou os dedos crispados em sua
imponente capa para conter a raiva. Não podia recordar a última vez que uma
mulher não lhe tinha prestado atenção, certamente porque nunca antes lhe tinha
acontecido. Em todos aqueles anos de experiência, inclusive durante os anos
moços, sempre o tinha acompanhado o reconfortante som dos suspiros por parte
das mulheres que estavam perto dele, assim como os gemidos de pena quando se
afastava delas. Passando a mão pelo queixo, ajustou a capa com uma rápida
sacudida com a mão e ergueu as costas. Com uma curta reverência, aceitou a taça
de vinho que Isabella lhe entregou.
Seth
observou como Edward reprimia sua exasperação e, adivinhando a causa, sorriu
enquanto Edward aceitava a taça das mãos de Isabella. De repente se sentiu
invadido por uma prazerosa sensação ao pensar que já não havia nenhuma guerra
que pudesse distrai-lo, a vida em Swan, contempSamdo como esse par de pombinhos
se sentiam incômodos resultava um passatempo do mais entretido.
—Comecemos
de uma vez, pai. —Edward ordenou com uma voz educada — Quanto antes acabemos
antes poderemos desfrutar do magnífico ágape que Swan nos preparou.
—Educadamente assentiu para Isabella, perguntando-se se ela tinha intenção de
atrasar a cerimônia.
Mas Isabella
não disse nada.
—A
este matrimônio eu contribuo —começou a dizer ela com sutileza — o castelo de Swan,
as terras vizinhas e que se estendem vinte léguas ao norte, dez léguas ao este
e ao oeste, e que limitam pelo sul com o rio Black, também a torre Blythe, que
se acha a oito léguas de distância dos limites das terras de Swan, pelo oeste.
—Olhando primeiro pai Carlisle e logo Edward, acrescentou sem desculpar-se —
Faz muito tempo que não visito a torre Blythe, por conseguinte não sei em que
estado a acharão.
Edward
assentiu e disse:
—Quando
a vir, determinarei sua condição e farei o que seja necessário.
—Além
disso —voltou a falar Isabella — a aldeia de Swan, como já sabem, não existe.
Nos últimos anos foi saqueada reiteradamente e faz dois anos desapareceu por
completo. Os sobreviventes vivem agora dentro da paliçada.
—Embora
não sejam muitos os habitantes, as reservas de comida em Swan são perigosamente
escassas —interveio Seth em um tom cometido.
Isabella
permaneceu tão erguida e tranquila como uma plântula ante o vento insistente
enquanto encarava aos homens situados ao outro lado da mesa com a toalha
vermelha sangue que os separava. Achava-se sozinha, entretanto não perdeu a
compostura. Suas palavras seguintes
ressonaram na estadia por causa de sua brevidade.
—Foi
um ano muito duro para Swan. —Faremo-nos cargo. Sabemos que perdeste a todos
seus cavalheiros nos últimos meses —disse Edward.
Apesar
da evidência, ele não compreendia como o castelo de Swan tinha podido sobreviver
durante tantas semanas em umas terras assediadas por mercenários que não
estavam às ordens de ninguém em concreto. Especialmente se tinha em conta a
observação de Seth, aonde tinha ido parar toda a comida, se mal havia gente a
que alimentar?
Isabella
não contribuiu nenhuma resposta à observação de Edward, mas sim permaneceu em
silêncio e imóvel. Foi pai Carlisle quem dirigiu a conversação de novo para o
contrato de matrimônio.
—Seu
patrimônio inclui alguma coisa mais, lady Isabella?
Sem
perder a compostura, Isabella respondeu olhando diretamente Edward, sem afastar
os olhos dele:
—Não
há moedas, nem joias, nem prata. O que meu pai não levou com ele na
peregrinação, os anos de guerra o foram consumindo.
Ela
contribuía muito pouca riqueza líquida a aquela união matrimonial, mas oferecia
o que Edward mais desejava: um lar e terras. Olhando-a fixamente, com as costas
reta e os olhos alertas, Edward só pode sentir orgulho ante a honra e a
dignidade que ela tinha mostrado ao falar com toda franqueza da pobreza que
envolvia Swan.
Continuando,
pai Carlisle desviou o olhar para Edward, não sem antes comprovar que George
tinha cotado a contribuição de Isabella.
—E
agora é o turno de Edward, o Brouillard de referir o que ele contribui a esta
união.
Isabella
retrocedeu um passo, mas seguiu olhando Edward com atenção. Ao notar a tensão
de sua futura esposa, Edward pensou que podia adivinhar seus temores. Por lei,
suas fortunas tinham que ser de um valor equivalente. Se sua parte não igualava
a de sua prometida, o matrimônio seria considerado nulo. Com uma boa dose de
orgulho e aspirando fundo, lhe manteve o olhar e começou a enumerar:
—Por
minha parte ofereço um serviço de mesa de prata maciça, uma baixela composta
por doze pratos de ouro, quinhentas peças de ouro, um arca cheia de
especiarias, uma arca cheia de tecidos preciosos trazidos diretamente do
Oriente, doze cavalos de batalha, uma pequena bolsa com pedras preciosas
incrustadas em joias de ouro e prata, e umas alforjas cheias de sementes.
Os
olhos de Isabella se iluminaram com um escuro fogo ao escutar a palavra
«sementes», e não pode evitar olhar a seu futuro esposo com regozijo. Assim,
parecia evidente que não lhe importava tanto o ouro como as sementes. Pelo
menos, ambos concordavam naquele ponto, e Edward se alegrou ante tal
constatação.
—Adquiri
as sementes nas diversas terras que percorri com o fim de que algum dia possa
enriquecer minha própria terra com elas —assentiu ele com firmeza — Pelo visto,
compartilhamos nosso interesse pela agricultura.
Isabella
tentou não fazer caso da calidez de seu tom e do desmedido brilho de seus olhos
ao olhá-la, como se ela fosse uma delicada peça de ourivesaria.
—Contribui
com copiosos presentes custosos e objetos preciosos a nosso matrimônio, milord,
mas a viabilidade de poder comer quando a gente passa fome é o mais importante.
—Sorrindo educadamente, adicionou — Estou segura de que saberei apreciar a
baixela de ouro quando meu estômago esteja satisfeito de ganso assado.
Por
experiência própria, Edward sabia o que significava passar fome, sim, a fome
não era um bom companheiro de viagem, por isso compreendia plenamente os
sentimentos que lhe expressava sua futura esposa. Durante suas aventuras como
cruzado, Edward também tinha passado fome até chegar ao ponto do desespero. Por
isso sorriu abertamente, para lhe mostrar seu total acordo.
E Isabella
se esqueceu das sementes.
Nunca
antes tinha visto um homem com uma beleza tão devastadora. Seu sorriso
iluminava o mundo de uma forma que nem o sol conseguia, e Isabella se perguntou
como era possível que não tivesse ficado totalmente cega ante a intensidade
daquele sorriso.
O
mundo se encolheu até ficar unicamente ele. Todos os sons cessaram. Todos os
pensamentos voaram. Ele a estava seduzindo e ela permaneceu imóvel, incapaz de
respirar. Isabella se sentiu invadida por uma paralisia como nunca antes tinha
experimentado. Não se tratava de um controle das emoções imposto por si mesma
mas sim de uma paralisia entristecedora que emergia do centro de seu ser e se
expandia irremediavelmente por todo seu corpo, até o ponto de congelar o ar que
a rodeava.
Edward,
o Brouillard tinha conseguido tocar sua fibra mais sensível, ele a tinha
abordado com sigilo e tinha liberado todas as emoções que ela guardava com
tanto zelo. E o tinha conseguido com tão somente um sorriso!
Entretanto,
o único Edward viu foi a pasmosa imobilidade de Isabella, que ele confundiu com
uma atitude de serenidade e absoluto controle de si mesma. Desafiando a razão, Edward
se sentiu decepcionado com a resposta por parte dela, e a seguir repreendeu a
si mesmo por sua própria estupidez. Isabella era mais fria que uma pedra.
Entretanto, não devia esquecer que formavam um bom casal, depois de tudo, o
objetivo de Edward era obter e velar por aquelas terras, e pelo visto compartilhavam
esse amor pela terra.
Swan
já era quase de sua propriedade.
Continuando,
pai Carlisle iniciou a cerimônia que os uniria ante os olhos de Deus.
—Quão
único fica é que eu peça solenemente sua mútua conformidade ao matrimônio. É o
momento de que reflitam... e pensem em Deus, que benze todos os matrimônios...
Isabella
só ouviu alguns fragmentos da cerimônia. Lutava contra a subjugação de sua
pessoa ante Edward, e ainda por cima sem opor resistência alguma. A voz
profunda de Edward retumbou em seus ouvidos enquanto ela ouvia:
—Sim,
eu Edward, tomo por esposa.
Entrelaçando
as mãos sobre seu colo, a imagem perfeita da submissão feminina, Isabella
respondeu com suavidade:
—Sim,
eu Isabella, tomo por marido.
Isabella
acabava de se entregar.
Pai Carlisle
tirou então um anel de ouro debruado de rubis e com um topázio encravado que
captava e refletia a luz cintiSamte das velas.
—Que
o Criador e Senhor de todos os homens, portador da vida eterna, conceda sua
bênção a esta aliança.
Edward
tomou o anel da mão do padre e o colocou sucessivamente em três dos dedos da
mão direita de Isabella, separando com gentileza suas mãos entrelaçadas, e em
cada ocasião pronunciou:
—No
nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo.
A
seguir tomou sua fina mão esquerda com solenidade entre as suas calejadas,
olhou-a aos olhos e se preparou para dizer as últimas palavras do contrato:
—Com
este anel eu te desposo.
Naquele
momento, ela notou uma estranha opressão no peito.
Com
um tom rouco, Edward continuou:
—Com
meu corpo te honro. —A imobilidade de Isabella se fez pedacinhos como uns
pedaços de gelo estreSamdo-se contra o chão. —E te faço participante de todos
meus bens. Incapaz de afastar a vista dele, Isabella tentava recuperar a paz em
seu rígido controle.
Então,
guiados por pai Carlisle e seguidos por Seth, cruzaram o salão em silêncio e
foram para a capela que se achava no piso superior. De todas as estadias do
castelo, a capela era a que única dispunha do verdadeiro luxo de ter o teto
envidraçado. Isabella avançou até o centro da nave e sentiu o suave tato de Edward
em sua mão a seguir ambos se prostraram no chão, e pai Gregory estendeu as mãos
sobre eles.
O
rugoso chão de madeira estava frio, em contato com a bochecha de Isabella, e
ela agradeceu a sensação. Queria fugir de tudo o que a asfixiava: a pobreza de Swan,
a fome, o fato de que sua casa tivesse sido cedida a um desconhecido e de que
aquele desconhecido fosse agora seu marido. Mas não podia. As emoções
reprimidas durante tanto tempo se empilhavam agora em seu estômago e em seu
peito de tal modo que, naquela postura prostrada, Isabella teve medo de
desfalecer. Aquele homem ia ser seu senhor, sua vida estava agora nas mãos
daquele desconhecido pela autoridade tão divina como do rei. OH! Quanto o
detestava! Ele poderia açoitá-la, encerrá-la, matá-la de fome, mas ela seguiria
detestando-o, disso não lhe cabia a menor duvida. As seguintes palavras do
padre a pegaram despreparada.
—Que
Deus os benza, e que seja o Senhor quem os ensine a honrar e a respeitar
mutuamente em corpo e alma.
Era
certo que Deus a tinha bento lhe dando Edward, o Brouillard por marido? Isso
era o que precisamente ela tinha tentado transmitir a Rosalie e ao John e ao
resto dos serventes, mas no fundo de seu coração, acreditava? Podia Deus
instrui-la para que adorasse e respeitasse a seu marido —posto que agora já era
seu marido— em corpo e alma? Como poderia usar seu corpo, o fruto de sua dor,
para adorar a seu marido? Lhe parecia uma ideia impossível e, entretanto, o
padre o havia dito. Os tremores que tinham começado com as palavras de Edward
voltaram a invadir suas vísceras até o ponto de que mal podia respirar. Isabella
ficou de pé com a ajuda de Edward, entrelaçou as mãos com dedos crispados sobre
seu colo e procurou acalmar-se. Ela era Isabella de Swan, e não pensava
desmaiar naquele momento.
De
pé, à direita de Edward, quase pega a sua mão de modo que podia notar o calor
que emanava de suas veias, Isabella ouviu a missa pela primeira vez como mulher
casada.
E
então a cerimônia fializou, ou pelo menos isso foi o que ela pensou. Edward
avançou até o altar; seu cabelo negro brilhava friamente sob a tênue luz que se
filtrava pela janela em cima de suas cabeças. Ele era muito alto. Como era
possível que não se fixou antes naquele detalhe? Ia belamente embelezado, com
uma capa que caía de seus amplos ombros com uma incrível elegância. Isabella
tocou o tecido áspero de seu vestido de lã, não era o traje mais indicado para
umas bodas, mas era o melhor que tinha.
Edward
se inclinou para diante e recebeu o beijo da paz de pai Carlisle, que tampouco
era de baixa estatura. Apesar de ser alto e robusto, Edward não era um
indivíduo de constituição grossa, seus ombros destacavam por sua amplitude e
tinha a cintura estreita, com os braços fornidos e as pernas longas... por que
não tinha visto o físico completo daquele homem antes? «Porque seus frios olhos
cinzas me encantaram», respondeu a si mesma, seus olhos frios e seu sorriso
enganador e seu cabelo negro ... Não podia ser! Já a estava seduzindo de novo!
Não, agora não. Não naquele instante em que ele avançava para ela e a olhava
com olhos solenes e alegres de uma só vez. E então Isabella se lembrou: Ele ia
transmitir-lhe o beijo da paz!
Edward
se colocou frente a ela com toda sua amplitude mas sem nenhuma mostra
ameaçadora, já que depois de tudo sua única intenção era lhe dar o beijo da
paz, entretanto, a sombra da cruz caiu sobre eles e Isabella estremeceu.
Sorrindo com diplomacia, como se pretendesse amansar um cão de caça assustado, Edward
colocou suas mãos sobre os ombros de Isabella. Seus movimentos eram lentos,
deliberados e gentis, mas apesar disso, Isabella deu um pulo ao primeiro
contato. «Edward pensará que sou uma dissimulada», repreendeu-se em silêncio.
Respirando devagar, elevou o rosto para aceitar o beijo.
Era
um beijo casto, e não significava nada mais que isso.
Era
um beijo casto, entretanto se estava prolongando muito e era muito suave e
muito... íntimo. O fôlego de Edward era quente e doce, seus lábios firmes e
suaves, seu queixo duro... A Isabella punha nervosa que ele a tocasse. Não
gostava da sensação de estar fisicamente tão perto dele. Não gostava que o
fôlego dele se mesclasse com o seu. Não queria sentir aquele corpo pego ao
dela. Não queria que ele a tocasse porque não desejava cheirar sua essência masculina.
Não queria que ele a seduzisse. Por isso se afastou bruscamente, com o fim de
acabar com aquele mau momento.
E
então sim que teve a certeza de que a cerimônia tinha acabado.
Pai Carlisle
sorriu com afabilidade. Seth deu umas palmadas nas costas de Edward e sorriu
visivelmente agradado. Ela observou como todos se aproximavam para parabenizar seu marido, e por um momento se
sentiu desconjurada em suas próprias bodas, e então todos se voltaram para ela,
esperando sua reação.
—O
jantar está servido, cavalheiros —anunciou com integridade, e sem outra palavra
andou para as escadas com toda a rapidez que lhe concederam suas pernas.
Seth
observou Edward com interesse, que a sua vez observava como sua esposa se
afastava apressadamente.
—Pequena
esposa mais competente que tem, Edward! Não se deixa levar pelas emoções, nem
em um dia tão famoso.
Afastando
os olhos do ponto exato onde tinha visto Isabella pela última vez, Edward
fulminou Seth com um olhar severo.
—Exatamente.
E que homem não desejaria uma mulher assim por esposa? —replicou, procurando
manter a moderação.
—Nisso
tem razão —conveio Seth com um gesto afável.
Como
se pretendesse imitar a atitude de sua esposa, Edward andou para as escadas e
desceu em silêncio seguido por Seth e Carlisle a escassos passos atrás dele. O
banquete estava servido. Emmett havia trazido a baixela de ouro, seguindo as
ordens de Edward, para dar o toque de opulência ao banquete que a comida por si
só não podia contribuir. O salão parecia brilhar com os brilhos do metal, a
mesa reluzia com os jogos de prata, estanho e ouro, e os cavalheiros que deviam
lealdade a Edward contribuíram seu grão de areia ao esplendor com suas cotas de
malha e suas espadas brilhantes.
Isabella
não se mostrou inquieta ao ver os homens armados em seu banquete de bodas, e
isso unicamente serviu para avivar as suspeitas de Edward. Se ela era inocente
de traição, deveria ter se sentido insultada. Se era culpada, deveria ter se
mostrado intranquila pelo fato de ter sido desmascarada.
«Malditas
sejam as mulheres!», grunhiu Edward para si. Quem podia confiar no coração de
uma fêmea? Isabella era uma verdadeira professora no que se referia a ocultar
suas emoções, ou possivelmente o que na verdade ocorria era que carecia de
emoções. Não, estava sendo muito severo na hora de julgá-la. Ela parecia
nervosa e disposta a conseguir que o banquete fosse um êxito tal e como tinha pSamejado,
isso era mais que óbvio, e também era muito próprio do gênero feminino. Isabella
permanecia de pé em um rincão, junto ao mordomo, assinaSamdo e dando ordens à
fila de serventes enquanto entravam carregados com as bandejas de comida
quente. E subitamente, começou a dar ordens a ele.
—Sente-se,
milord. Teve uma longa viagem sob a chuva, sente-se e coma.
Era
uma ordem educada, mas entretanto ele não podia aceitar sua proposta. Isabella
era a senhora e ele o senhor. Não pensava sentar-se à mesa sem ela. E, apesar
de morrer de vontade de ocupar o assento
correspondente ao lorde de Swan, não pensava fazê-lo. Ela teria que guiá-lo até
seu lugar e ceder-lhe com seu pleno consentimento. Edward não só queria que os
habitantes de Swan vissem como lhe cedia seu posto, mas também queria que
entregasse Swan em pessoa.
Mas Isabella
já se deu a volta, esperando que Edward atuasse tal e como tinha pedido. Era
evidente que aquela fêmea tinha passado muito tempo sem um senhor.
Transcorreram
vários minutos antes que ela desse a volta e descobrisse que nem Edward, nem Seth,
nem Carlisle se moveram nem um ápice. Ao dar-se conta, sua expressão de
surpresa foi tal que Edward esteve seguro de que jamais a esqueceria. Em todas
as horas que fazia que se conheciam, aquela tinha sido a primeira amostra de
emoção em seu rosto.
—Tem
alguma queixa, milord? Há algo que não seja de seu agrado? —perguntou
rapidamente, com um mais que evidente desconforto.
—Sim
—respondeu ele com um tom cometido — Espero a você, milady.
—OH,
não é necessário —asseverou ela — Minha intenção era fiscalizar...
—Senhora
—a cortou ele, com uma voz profunda e imperativa — A espero.
Para
Isabella, o único brilho, o único brilho em toda a estadia se originou nos
olhos chapeados de Edward. O ar se rarefez entre eles. Isabella podia notar a
força de sua autoridade sobre ela, inclusive naquela estadia tão concorrida que
de repente tinha ficado sumida em um incômodo silêncio. E soube que teria que
acatar suas ordens. Não, ele não tinha
pedido, mas sim ordenado. Mas Edward era seu marido e seu senhor, e ela devia
submeter-se a seu mando.
Com
graciosos movimentos, Isabella se aproximou dele. Seus passos ressonaram na
estadia silenciosa. John decidiu sair em sua ajuda e lhe perguntou onde estava
o sal. O volume do ruído se incrementou até alcançar o nível normal, e os
serventes retomaram novamente suas obrigações e começaram a entrar e a sair do
salão, a baixar as escadas e sair ao exterior para atravessar o pátio até a
cozinha e logo retornar ao salão.
Edward
ofereceu a mão e Isabella, com um leve calafrio apenas perceptível, colocou sua
mão sobre a dele. A mão de Edward tinha um tato quente e seco, enquanto a sua
mão estava fria e úmida. Entretanto, não podiam perder mais tempo, a mesa
estava servida, e Edward não duvidou em guiá-la até seu lugar. Grande
espetáculo tinha montado ele com aquela estupidez de que o acompanhasse até a
mesa principal! Isabella não teria imaginado que um cavalheiro acostumado a
lutar se preocupasse com um detalhe tão mínimo, mas o certo era que Edward não
se parecia com nenhum dos cavalheiros que tinha conhecido até esse momento. Ele
seguia o protocolo de etiqueta e cavalaria ao pé da letra. Parecia-lhe um
indivíduo realmente estranho segundo sua experiência, que para falar a verdade,
era muito limitada.
Edward
parecia encantado, ou melhor dizendo, parecia totalmente eufórico de que Isabella
não tivesse rechaçado seu oferecimento de sentar-se junto a ele na mesa
principal. Embora o que realmente lhe tinha agradado por igual era que ela não
tivesse duvidado em colocar-se a seu lado e que agora estivesse sentada
placidamente a sua esquerda. Para ele, ambos representavam uma frente unida ante
a gente de Swan, os dois juntos, e a solidariedade era seu objetivo tão na
aparência como em feitos. Acabavam de pronunciar os votos do matrimônio com
testemunhas, por isso Swan já estava a salvo. Só ficava uma coisa por fazer:
consumar o matrimônio.
Ante
tal pensamento, Edward notou um intenso calor na parte inferior do ventre.
Não
o esperava, mas Isabella estava resultando uma caixa de surpresas. Tinha uma
beleza cálida e uma forma de comportar-se muito comedida; seu corpo era
delicado e sua vontade de ferro, Edward havia se sentido atraído por ela
inclusive quando havia se sentido rechaçado por ela. Desejava-a e não queria
desejá-la, porque tinha a impressão de que ela não o desejava.
Era
uma experiência absolutamente nova para ele.
Edward
voltou-se para contemplar o distinto perfil de sua esposa, e o intenso calor em
seu ventre ficou visivelmente refletido no respSamdecente brilho de seus olhos.
E Isabella, ao notar seu olhar, deu a volta e ficou apanhada no frio calor
daqueles olhos chapeados. Tinha reconhecido e compreendido perfeitamente a
intensidade daquele olhar. Sem necessidade de realizar nenhum esforço, Isabella
se encerrou inclusive mais em sua compostura serena, dobrou as capas mais
externas e visíveis de seus pensamentos para dentro como uma tartaruga que
procurasse refúgio em sua carapaça.
Não
fazia nem uma hora que estava casado e somente fazia um dia que a conhecia, mas
Edward teve a certeza de que ela se afastou inclusive mais dele, apesar de não
poder entender a razão. Isabella estava agora casada e protegida, sua vida
estava nas mãos de Edward, e ele sabia que era um homem bonito. Por que ela não
se mostrava encantada com os transcendentais sucessos daquele dia em Swan?
Elevando
a taça, levou-a cuidadosamente não para seus lábios, a não ser para os de Isabella.
O fato de que ela fosse agora sua esposa —embora só o fosse desde uns minutos—
lhe outorgava o direito de atuar daquele modo. Além disso, sabia que com aquele
gesto cavalheiresco lhe daria de presente um sorriso. A vaidade de Edward o
exigia. Não desejava que ela aguasse a festa com um comportamento dissimulado
como tinha demonstrado durante a cerimônia. Isabella reagiu como se estivesse
aturdida. Não pode evitar olhá-lo com inquietação, como se tentasse decifrar se
Edward era um lunático ou um idiota. Mas ele não era nem uma coisa nem outra,
pelo menos não o era antes de conhecê-la.
Sorrindo
e mostrando uma atitude aduladora, Edward murmurou algo ao ouvido de sua
esposa:
—Deixe
que eu seja quem te dê de comer, Isabella. Já sei que não é o costume na
Inglaterra, mas é o costume francês.
Quando
ela unicamente se limitou a olhá-lo fixamente nos olhos como um cervo
encurralado, Edward acrescentou:
—Será
uma verdadeira honra para mim, minha senhora.
Edward
afogou um suspiro de alívio quando viu que permitia que lhe desse de beber da
taça que ambos compartilhavam no banquete. Apesar dele fazer as honras, ela não
mostrou calidez alguma. Afastando a taça dos lábios de Isabella, Edward lhe
manteve o olhar enquanto bebia pelo lado da taça que ela tinha esquentado com
seus lábios. Isabella empalideceu e baixou a vista até cravá-la em suas mãos
que mantinha rigidamente entrelaçadas sobre seu colo. O magnífico anel que lhe
tinha presenteado brilhava esplendorosamente em contraste com a brancura de seu
vestido. Era a única coisa nela que brilhava com desfaçatez. Sem lugar a
dúvidas, a atitude de sua esposa o deixava perplexo.
—Vamos
homem, não é mais que uma donzela inocente —sussurrou Seth a Edward ao ouvido —
Deve estar nervosa, pensando no que ocorrerá quando tiver que subir contigo a
seu aposento.
Era
certo. Edward era um imbecil ao não pensar em que provavelmente ela se sentia
incômoda com a perspectiva da noite de bodas. Subitamente quase sentiu pena por
ela. O dia se via de uma perspectiva diferente se o observador era uma pobre
donzela inocente. Tinham-na obrigado a casar-se com um perfeito desconhecido,
apesar de não ser uma tradição incomum, mas seu marido não tinha sido eleito
por um pai que a queria e que velava por ela. Seu prometido tinha sido
escolhido a dedo por um soberano novo no trono com afã de consolidar as terras
do reino. Essa situação bastaria para incomodar a qualquer donzela até um ponto
inusitado.
—Olhe,
Isabella — disse com uma esmerada delicadeza. A pena que sentia por ela tinha
atenuado seu desejo carnal — cortei a porção mais saborosa para você. —E a
sustentou em sua mão antes de levá-la até a boca dela. Isabella manteve a boca
firmemente fechada enquanto o suco vermelho da carne escorregava pelo dorso da
mão de Edward — É um manjar digno de um festim nupcial, minha senhora, eu
adoraria que a provasse.
Com
uma visível indecisão, e com uma evidente apreensão, Isabella abriu a boca, e
enquanto a carne roçava seus lábios, tirou a língua para prová-la, e Edward
soube que nunca antes tinha dado de comer a uma dama tão genuinamente sensual.
Entretanto, não tinha sido a intenção que ele procurava. Ao menos até esse
momento.
—Muito
bem, Isabella — sussurrou lhe infundindo ânimo — Não me diga que não é tenra e
deliciosa. —O suco escorregava livremente por sua mão — Deseja mais?
—Não
—respondeu ela nitidamente quando engoliu a parte de carne com um tremendo
esforço.
—Não?
—Edward sorriu lentamente — Têm pouco apetite, senhora. Preferiria ter uma
esposa com uma fome voraz para poder satisfazer seu apetite até que ambos
ficássemos saciados.
Isabella
respirava agora rapidamente pela boca. Estava segura de que se ele não deixasse
de olhá-la com esses olhos sedentos, esses olhos que a devoravam, vomitaria
irremediavelmente sobre a delicada toalha da mesa. Toda essa conversa sobre
carne e fome voraz... tinha conseguido lhe revolver o estômago. Não estaria
nada mal que vomitasse em cima do colo de Edward. Então sim que seria um festim
próprio de umas bodas.
John
a salvou da única forma que lhe ocorreu: improvisando uma distração realmente
necessária. Aproximando-se de Edward, serviu-lhe mais vinho, elevando o braço
justo à altura de seu rosto. A expressão de asco que se desenhou na expressão
de seu marido ajudou Isabella a recuperar novamente a compostura, de fato, teve
que conter-se para não rir. John tomou seu tempo para servir o vinho, movendo o
braço e sacudindo a manga com tanto vigor como podia. Isabella estava preparada
para o comentário de Edward quando John se separou da mesa.
—Já
estamos outra vez a sós —começou a dizer ele, olhando-a com olhos quase
acusadores — O fedor pela falta de higiene se mesclou com o aroma da comida.
Não está de acordo?
Com
que cavalheiro tão delicado se casou, que considerava de mau gosto o saudável
fedor a suor! Mas ela não expressou seus pensamentos, nem tampouco revelou o
que pensava com a expressão de seu rosto. Olhando serenamente a seu marido,
respondeu:
—Estão
todos exaustos pelo enorme esforço e os nervos que passaram preparando o
banquete. Particularmente com o atraso —remarcou tranquilamente.
Edward
não quis seguir com aquela conversação. Em vez disso se dedicou a estudar seu
rosto. Era realmente bela, mas carecia de calidez e seus olhos careciam de
brilho. Bom, isso mudaria, e rapidamente. Isabella estava aterrorizada com a
noite de bodas, seguro que quando tivessem consumado o matrimônio, ela mudaria
e se abriria como qualquer outra mulher. O medo a dominava, disso não lhe cabia
a menor duvida.
Infelizmente,
não lhe faltava razão.