quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Brouillard - capitulo 2



Rosalie não gostou absolutamente da notícia sobre as iminentes bodas de sua senhora; de fato, resultava-lhe impossível ocultar sua enorme consternação.
—E o que fará, minha senhora? —perguntou visivelmente afetada.
Isabella elevou a vista e por uns instantes abandonou o trabalho de separar as flores das folhas do vistoso ramalhete de mil-em-ramas que acabava de recolher para responder de modo sucinto:
—Me casar.
Rosalie entrelaçou as mãos e as afundou nas dobras de sua túnica com porte aflito.
—Mas senhora...
—Rosalie —a interrompeu Isabella, acariciando cuidadosamente as flores que estava preparando para secar — Swan necessita um lorde. —Fixou a vista nos adoráveis olhos azuis de sua criada e continuou sem perder a calma — Meu dever é velar pela segurança de Swan; fui consciente disso do momento em que o pão substituiu o sabor do leite de minha mãe.
Quando Rosalie continuou olhando-a com olhos assustados, Isabella sorriu docemente e perguntou:
—Acaso não te dá conta de como meu estado de órfã afetou a Swan? Certamente passou fome como eu, não é assim? Não te parece que todos nos beneficiaremos do robusto braço de um cavalheiro elevado em nossa defesa? —Isabella agasalhou entre suas mãos as mãos geladas de Rosalie e continuou — Já chegou a hora de que me case, e o rei está em seu direito de me escolher um marido.
—Mas o homem que escolheu será um de seus homens! —protestou Rosalie.
—Pode ser Aro II pior rei para a Inglaterra que o foi Vladimir? —contra-atacou Isabella — Pode este homem, o tal Edward, o Brouillard, ser pior para Swan que o fato de que eu siga sozinha à frente de tudo sem nenhum marido?
Rosalie não tinha resposta para sua senhora, ao menos nenhuma que se atrevesse a expressar em voz alta. Era certo. Os tempos não tinham sido nada bons, mas ela não estava preocupada com Swan, mas sim por sua senhora.
—E quando se tiver convertido na esposa desse cavalheiro e ele seja lorde de Swan, então o que, lady Isabella? —sussurrou Rosalie, deixando entrever seus mais profundos temores.
Isabella voltou a fixar a vista no ramalhete de flores, tão níveas e delicadas, apesar de que sabia que muito em breve murchariam e que as bonitas folhas verdes logo perderiam também sua frescura para cair murchas. Uns instantes antes aquelas flores estavam vivas e tomavam todos os nutrientes do chão. Agora, entretanto, tinham-nas cortado pelo caule para cobrir as necessidades dos habitantes de Swan. A finalidade daquelas flores medicinais era servir aos que lhes tinham enviesado a vida, a aqueles que as tinham privado de ar, a aqueles que tremiam com febre. Mas primeiro as mil-em-ramas tinham tido que morrer para curar às pessoas de Swan. E a Isabella tocava desempenhar o mesmo papel: devia relegar todas suas emoções e lembranças até o mais profundo de seu ser e por sua vida ao serviço de Swan. Deslizando as mãos por cima das folhas, sentindo o suave tato na ponta dos dedos, Isabella respondeu a jovem criada sem elevar seus olhos escuros.
—Então Swan estará a salvo, Rosalie, e o estará enquanto seu senhor tenha forças para empunhar a espada e montar sobre um cavalo de batalha.
«Sim, Swan estará a salvo», pensou Rosalie enquanto observava como sua senhora abandonava as flores e ia para a cozinha. Mas o que seria de Isabella?
Tudo o que se podia fazer para dignificar o castelo estava se fazendo nesse instante. Ninguém queria que se dissesse que Swan não tinha recebido a seu novo lorde com a cabeça encurvada. Na cozinha, John, o mordomo, fiscalizava a preparação de seis galinhas, dois patos e meio porco; as ervas culinárias começavam a escassear, mas ainda ficava bastante salsinha e orégano para oferecer um ágape mais que respeitável, e quando lady Isabella chegou com uma bolsinha de cravos que tinha guardado em lugar seguro, todos sorriram agradados.
A atividade era frenética: sacudir as tapeçarias, arrancar as más ervas, afiar os utensílios de lavoura, limpar o esterco dos estábulos... A enorme agitação infundiu a Isabella um pouco de energia. Swan recuperava sua vitalidade, preparando-se com alegria para a chegada de seu novo senhor, e a ideia a encheu de satisfação.
Ao constatar que John estava fiscalizando os trabalhos na cozinha com grande acerto, Isabella subiu apressadamente as escadas até seu quarto. Rapidamente e sem perder a calma, foi para o outro extremo da habitação, até uma enorme arca que continha suas mais apreciadas posses e o abriu com cuidado. Fazia três meses que não tocava a pequena faca que sempre repousava em cima de todos os seus pertences, a faca que seu pai lhe tinha entregue a modo de presente de despedida. Isabella se surpreendeu ao esticar a mão instintivamente para tocá-lo. Com enorme esforço, afastou novamente todas as lembranças de sua mente e começou a buscar no interior da arca, sem um objetivo claro. De repente se deu conta de quão absurdo resultava seu comportamento, e foi para trás, sentando-se sobre os calcanhares, e riu em silêncio. O que pretendia? Escolher o melhor vestido entre seus trajes cinzentos para oferecer um aspecto primoroso e atrativo, digno de uma mendiga? Como era possível que virtualmente todo seu vestuário fosse de uma única tonalidade, o cinza? Sacudiu a cabeça severamente e suas largas tranças varreram o chão com o movimento. Finalmente, Isabella se decidiu pelo traje menos lúgubre: um vestido de lã sem tingir. Sacudiu-o vigorosamente e o inspecionou para assegurar-se de que não tivesse nenhum buraco. Felizmente, tampouco tinha nenhum remendo e parecia bastante digno. Estava debruado por uma fita negra que conferia a atenuada cor branca da lã um aspecto mais luminoso. Em realidade não ressaltava muito a aparência de sua proprietária; a falta de uma cor viva parecia apagar a calidez de sua compleição, mas pelo menos estava limpo e não se assemelhava ao típico traje que usaria uma faxineira. Era o melhor que tinha. Gostava de estar atrativa para o homem que logo chegaria para casar-se com ela, embora não compreendia o porquê. Casariam-se tanto se lhe agradava o que via como se não; era a ordem do rei. Depois de tudo, o mais importante seria a primeira impressão que lhe desse Swan.
Isabella alisou o vestido com seus magros dedos que tremiam quase imperceptivelmente e ficou de pé sem soltar o grosso tecido. No piso inferior ouviu o som de uns passos que subiam as escadas. Alguém que ela não distinguiu começou a chamar  Collin, que se achava entre as almeias fazendo de vigia, e Collin repôs que ainda não via ninguém que se aproximasse do castelo. Ainda não se via Edward, o Brouillard. Mas muito em breve chegaria. Gradualmente, com excessiva cautela, Isabella se moveu para a fresta e olhou para o pátio que se abria a seus pés. Viu Claire na horta, tentando alcançar com enorme esforço uma maçã que pendia de um dos ramos mais elevados da árvore, com uma cesta a seus pés só meio cheia. Tybon estava concentrado escovando a longa pelagem do único inquilino que morava no estábulo com tanto brio como se se tratasse de um poderoso cavalo de batalha e não uma pobre égua velha e lânguida. Com a extremidade do olho viu Rosalie perambular sigilosamente pela cozinha entre as sombras, cabisbaixa e com os ombros caídos, certamente pensando em sua senhora. Isabella sorriu com um profundo sentimento de agradecimento ao pensar em quão afortunada era de que alguém se preocupasse tanto por sua pessoa. Entretanto, pelo bem de Rosalie, pelo bem de todos os residentes de Swan, preferia não admitir que a chegada do Brouillard a aterrorizava.
Ele chegaria a qualquer momento, era pouco provável que seu arauto se adiantasse mais de meio-dia. Ao anoitecer já estaria casada, e depois... Isabella não podia pensar além daquele ponto. Não sabia que tipo de homem era; possivelmente alguém acostumado a usurpar sem pedir permissão, cuja única intenção era tirar o máximo proveito do que ficava em Swan para logo partir em busca de outra propriedade mais próspera. Desconhecia suas intenções, e não as saberia até que pudesse olhá-lo aos olhos e decifrar sua personalidade. E aquela incógnita a afligia. Unicamente sabia uma coisa: que protegeria Swan com unhas e dentes até que descobrisse o tipo de homem que o rei Aro lhe tinha eleito por marido.
Isabella não pensava na ideia de proteger a si mesma.
Aspirou fundo e ergueu os ombros, a seguir abandonou seu quarto e entrou no quarto principal, que ocuparia seu novo marido. A cama estava recém feita, enfeitada com os melhores panos que Swan podia oferecer. Tinham aceso o fogo na lareira, e a bacia estava a ponto com água fresca. Sem olhar de novo para a cama, Isabella assentiu levemente com a cabeça em sinal de aprovação e abandonou o quarto. O mais sensato que podia fazer era baixar de novo para fiscalizar o jantar.

Claire levou a cesta com as maçãs até a cozinha e a deixou cair pesadamente no chão.
—Agora já não fica nenhuma só fruta nas árvores —anunciou a criada.
John a observou por cima do ombro e remarcou com um tom gentil:
—Oferece seu prezado tesouro para a melhor das causas.
—Por nada do mundo deixaria que nossa senhora ficasse em ridículo —declarou Eric, como se falasse em nome de todos os ali presentes — O novo lorde e seus homens comerão, e além disso comerão bem, embora para isso nós tenhamos que jejuar.
—Não se preocupe, comeremos —lhe assegurou Sam enquanto cortava a carne de porco em quadrados— embora possivelmente tenhamos que comer guisado.
Claire secou as mãos no avental antes de começar a preparar as frutas para assá-las.
—Dá igual! A verdade é que um bom prato quente sempre é maravilhoso! —remarcou ela com seu habitual modo de falar desenvolto e sem rodeios.
—Estão preparados para dar a bem-vinda a nosso novo lorde? —quis saber Sam.
—Um novo lorde significa que poderemos comer carne frequentemente —respondeu John — Seguro que melhorará nossa qualidade de vida, por isso deveríamos estar agradecidos.
—Possivelmente sim —insistiu Sam enquanto cortava a carne de porco com a enorme faca — ou possivelmente não.
—Cuidado —o admoestou John, com educação mas com firmeza — Que ninguém questione, nem especule, nem duvide sobre essa questão. Está a ponto de chegar nosso novo lorde, e lhe daremos a bem-vinda como é devido. Pensem em nossa senhora: esta manhã despertou órfã, no meio da amanhã já estava prometida, e estará casada antes de que acabe o dia. Cuidado —repetiu com mais ímpeto — Por respeito a lady Isabella, ninguém questionará a valia do novo lorde de Swan.
Sam não disse nada mais depois daquele alegação, assustado ante a ideia de que sua língua mordaz pudesse causar que lady Isabella tivesse que aguentar uma carga mais pesada que a que já lhe tocava suportar. As palavras de John tinham sido muito acertadas e aceitas por todos os que se achavam na cozinha preparando um festim com o pouco que tinham para celebrar a chegada do homem do rei Aro. Além disso, John tinha falado no momento oportuno, já que Isabella entrou na cozinha justo um momento depois.
Ao observar com que tranquilidade a senhora se dedicava a fiscalizar o progresso do pudim de flocos de aveia que fervia na panela ou como conversava com John a respeito da quantidade precisa de cravos que tinham que usar para condimentar a carne de porco, todos os servos começaram a relaxar. Ela era a proa do navio, que os mantinha a salvo de afundar em um estado de pânico e medo. Mas até aquele dia, o navio tinha navegado sem leme. Edward, o Brouillard mudaria a situação por completo. Ao observá-la, Claire mal  podia acreditar que em tão somente umas horas sua senhora já estaria casada, tão calma como estava. Ao observá-la, Eric teve a crescente confiança de que o lorde de Swan protegeria as terras e a sua gente de qualquer ataque. A imagem começou a tomar corpo na mente de cada um deles; sim, ter um novo um lorde significaria que os caçadores trariam carne e que os homens observariam o horizonte da paliçada; seu mundo, que tinha ido se desmoronando durante aqueles últimos anos, voltaria para seu estado correto. A visita de Isabella à cozinha tinha surtido o efeito que ela tinha desejado.
E então, da parte superior da muralha, o grito de Collin ressonou entre os muros até penetrar no pátio, um eco que parecia reverberar na alma de Isabella.
—Já chega!
Todos os olhos giraram para a senhora; por um momento, todos abandonaram os preparativos nos que estavam ocupados; o fio de suor que caía de Christine pelo pescoço até as costas, as gotas de sangue escorregando pela enorme faca de Sam, a agradável fervura da comida fervendo na panela, a rápida piscada dos olhos azul celeste de Eric, todos aqueles matizes e movimentos se amplificaram e se cristalizaram para ela naquele momento. Foi um momento eterno, um momento no que o tempo se deteve. Era o passo de liberdade a cativeiro, de celibato a matrimônio. «Não —corrigiu a si mesma em silêncio— era o passo de vulnerabilidade em um mundo hostil a segurança, de fome a um estômago cheio.»
Isso era o que devia recordar, o que devia acreditar. Quando pronunciou as seguintes palavras, cessou a intensa sensação de estar vivendo um momento eterno.
—Já chega —repetiu Isabella, e a seguir suspirou lentamente — E eu tenho que sair a seu encontro.
Sem perder a compostura, deu meia volta e abandonou a cozinha, embora se deteve um instante na soleira. Os ruídos da frenética atividade reataram com a força de um trovão inesperado e ela sorriu. Aspirou ar lentamente antes de sair para enfrentar o vento agreste que rugia dentro da paliçada, desfrutando da fresca umidade do ar que penetrava em seu nariz. Realmente estava saboreando cada momento como se fosse o último. Naquele dia ia casar-se. Seu prometido se aproximava, e ela se casaria por ordem do rei. A força daquela realidade era tão esmagante como o peso de uma laje. Assentiu firmemente e decidiu outorgar uma pequena trégua a seus pensamentos. Com gesto cometido —que teve que impor-se para ocultar o terror que a invadia — Isabella atravessou a espSamada.
Com a extremidade do olho viu Rosalie, abraçada ao muro da imponente torre, com os olhos desmesuradamente abertos e o rosto pálido. Isabella se colocou frente a ela, fez-lhe um gesto com a mão e Rosalie desapareceu entre as curvas escuras da torre. Por um momento, um efêmero momento, Isabella desejou que alguém lhe desse permissão para não ter que enfrentar ao encontro iminente, mas cortou aquele desejo rebelde com um contundente assentimento com a cabeça.
—Abra a porta —ordenou a Collin sem perder a calma — Chega o lorde de Swan.
Isabella afogou a sufocante sensação de vulnerabilidade que a assaltou ao ver como se abria lentamente a porta da torre. Podia ouvir o som dos cascos de um cavalo que se aproximava. Ergueu as costas e esperou, sozinha, Edward, o Brouillard.

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