domingo, 3 de fevereiro de 2013

Brouillard - Capitulo 5


Isabella saiu da sala adjacente à capela, alisando rugas invisíveis de seu pesado traje de lã. Tinha passado muito tempo da última vez que se confessou, e agora se sentia melhor. Pelo menos temporariamente.
Elevou a vista e ao ver a singela cruz, recordou as palavras de pai Carlisle. Ela e o Brouillard tinham recebido a bênção de Deus, não era um pensamento desagradável. Realmente, estava cansada de carregar com todo o peso de Swan em seus ombros. Seria positivo compartilhar esse peso e a responsabilidade de tomar decisões. E Edward podia percorrer a distância até a torre Blythe em um abrir e fechar de olhos, coisa que ela era incapaz de fazer. Por conseguinte, quem atacaria um cavalheiro possuidor de uma força tão descomunal? Depois de tantos saques, possivelmente a torre Blythe se achava reduzida simplesmente a escombros. Isabella afastou aqueles pensamentos rudes de sua mente. Não lhe convinha pensar na torre Blythe, entretanto era hora de saber que parte ficava ainda em pé e que parte tinha sido destruída. Dispor de Edward, o Brouillard por marido seria efetivamente proveitoso para Swan.
Isabella recordou subitamente como ele a tinha olhado do alto de seu cavalo ao chegar ao Swan. Um calafrio lhe percorreu a coluna vertebral e teve que realizar um enorme esforço para não perder o controle. Edward era um homem com muito orgulho, disso estava segura. O padre nem sequer tinha tentado ocultá-lo. O pai Carlisle também havia dito que Edward era um cavalheiro piedoso que professava uma profunda devoção por Deus. Aquele comentário lhe tinha infundido ânimos, já que acaso Deus não era conhecido por sua compaixão e misericórdia?
E por sua ira justa e íntegra?
Isabella não podia permitir que seus pensamentos entrassem por aquele caminho. Realmente, jamais tinha tido problemas na hora de controlar seus pensamentos até a chegada de Edward, o Brouillard. O que tinha aquele indivíduo que diminuía sua força de vontade? Fosse o que fosse, resultava-lhe extremamente irritante. Ela não descartava que ele o fizesse de propósito, Edward não era inglês e sim normando, e os normandos tinham fama de ser uma raça obstinada.
O pai Carlisle se mostrou solícito e a tinha reconfortado. Ele conhecia seu marido, e não tinha perdido a fé em Edward nem depois de escutar a confissão de Isabella, apesar do padre ter perdido a compostura por uns instantes. Seus olhos não tinham podido ocultar o horror, e lentamente tinham adotado uma expressão de compaixão. O pai Carlisle era um homem bondoso. Se seu marido tinha sido instruído em assuntos espirituais por ele durante vários anos, certamente uma parte daquela bondade teria germinado em Edward. Parecia um argumento lógico, embora não muito convincente, mas pelo menos era uma questão a ter em conta. Tudo sairia bem porque tudo tinha que sair bem. As palavras do padre a tinham reconfortado, já que ela não morava em um mundo no que a gente se expressasse com tanta gentileza a não ser unicamente com mandos e exigências.
Carlisle abandonou a sala a passo lento, e unicamente se deteve ao ver lady Isabella de pé só na capela. Vestida de branco, com as mãos em posição de prece, como se estivesse ou rezando ou suplicando, tinha o aspecto de uma peregrina penitente. Carlisle considerou que a comparação era particularmente adequada.
Edward, que estava procurando sua esposa, apareceu na soleira da capela sem dizer nada. Que estranho que ela se fixasse antes em Edward que no pai Carlisle. Tinham sido seus esplêndidos cachos escuros os que tinham conseguido captar a atenção de Isabella. Que tato teriam, suaves ou ásperos? Manteriam igualmente aquela tonalidade negra azulada sob o sol de verão como sob o manto da névoa invernal? Isabella procurou aferrar-se a aqueles pensamentos antes de que fugissem de sua mente, e riu para si. Não sabia o que esperava como resposta a suas perguntas não formuladas em voz alta.
Tal e como estava acostumado a acontecer quando Edward se aproximava dela inesperadamente, só tinha olhos para ela. Ele não via a peregrina penitente que via pai Carlisle, via uma mulher forte, uma mulher com absoluto controle de si mesma e de todos os que a rodeavam. Mas fria, terrivelmente fria. Infelizmente, não sabia por que se sentia atraído por ela. Era uma insensatez, e ele sabia, mas ela o atraía irremediavelmente do mesmo modo que uma árvore atrai uma descarga elétrica.
E então outro pensamento o abordou com a mesma intensidade: ela sempre parecia estar sozinha.
Carlisle rompeu o momento de intensa contemplação entre eles. Com um gesto, convidou Edward a entrar na capela, com uma expressão incomensuravelmente séria.
Novamente, como varrido pela corrente, Edward sentiu aquela estranha sensação de que algo estranho acontecia em Swan. A sensação não o abandonava nunca por completo, mas às vezes sua força se intensificava enquanto que em outras ocasiões se avivava. Naquele preciso momento, a sensação era intensa.
—Alegra-me que estejam aqui os dois, já que há algo que quereria comentar com vocês antes de que culmine o primeiro dia de sua união —disse Carlisle.
A seguir, Carlisle tomou a mão de Isabella entre as suas e a estreitou com ternura, com uma carícia paternal, logo colocou a mão de Isabella sobre a palma da mão de Edward. A mão de seu marido, que superava a do padre tanto em tamanho como em robustez, agasalhou a de Isabella de tal forma que o único que ficou visível foi seu protuberante pulso.
Isabella não se sentiu reconfortada.
Mas Carlisle não lhe dedicou nenhum olhar. Seus olhos, que tinham adotado uma solene seriedade, cravaram-se em Edward.
—Recorda os versos sobre como um marido tem que amar a sua esposa, Edward?
Edward não esperava aquela pergunta, e tomou um momento antes de responder.
—Sim, pai. Refere-se à carta de São Paulo aos Efésios, mas agora não é o momento de iniciar um de seus questionários para comprovar minha concentração e minha memória.
—Trata-se de algo mais que isso, Edward. Quero te ouvir dizer as palavras de Nosso Senhor referentes ao dever do marido com sua esposa. Desejo que lady Isabella as ouça de seus lábios.
Edward escrutinou o rosto do pai Carlisle em busca de algum indício de aonde queria ir parar com aquele pedido tão estranho. Quão único detectou em seu rosto foi uma profunda honestidade. Isabella olhava ao padre com uma patente curiosidade, por isso não parecia ter uma noção mais clara sobre as causas que moviam pai Carlisle. Normalmente Edward teria rechaçado o pedido de Carlisle com boas maneiras, lhe pedindo que deixasse o interrogatório para outra ocasião, mas aquele dia tinha obtido um prezado presente após tantos anos de suor. Submeteu-se ao padre com um sorriso. A sensação de desconforto que o tinha invadido ao entrar na capela estava se desvanecendo e se sentia aliviado por isso, possuía Swan e possuía Isabella. Que mais podia pedir?
—Sim pai, recordo-o, e se o que espera é que lhe demonstre isso, estarei mais que encantado de fazê-lo.
Edward começou a recitar o texto:
—«Maridos, amem a suas mulheres, assim como Cristo amou à Igreja, e entregou a si mesmo por ela, para santificá-la, havendo-a desencardido levando-a da água pela palavra, a fim de apresentar a si mesmo, uma Igreja gloriosa, que não tivesse mancha nem ruga nem coisa semelhante, mas sim fosse Santa e imaculada».
Edward conteve a respiração e se fixou em que Isabella mantinha as mãos crispadas e pegas a seu peito e que estava olhando ao pai Carlisle com uns olhos desmesuradamente abertos. É obvio, aquela visão unicamente conseguiu exasperar mais a Edward. O que acontecia com aquela fêmea que sempre olhava ao padre e alguma vez ao marido que Deus e o rei lhe tinham outorgado? Disposto a acabar com aquela molesta situação, Edward continuou a um ritmo mais veloz:
—«Assim também devem amar os maridos a suas mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, a si mesmo se ama. Porque ninguém aborreceu jamais seu próprio corpo, mas sim o sustenta e o cuida, assim como também Cristo à Igreja, porque somos membros de seu corpo. Por isso o homem deixará a seu pai e a sua mãe, e se unirá a sua mulher e os dois serão uma só carne».
—Obrigado, Edward —o interrompeu pai Carlisle enquanto Edward fazia outra pausa para respirar.
Isabella tinha as bochechas acesas e, apesar de não ter olhado seu marido nenhuma só vez desde que tinha começado a recitar o texto, Edward ficou encantado com sua imagem. Possivelmente o pdedido de Carlisle de que recitasse as Sagradas Escrituras não tinha sido tão má ideia, ao pronunciar as palavras que sabia de cor tinham vindo à mente os prazeres que o esperavam no leito nupcial. Quando chegasse o momento, estava seguro de que conseguiria que as bochechas de Isabella se acendessem com regularidade. Quanto mais a olhava, com sua respiração ofegante, mais seguro estava que Isabella se esquentaria na cama.
—São as Sagradas Escrituras? —perguntou ela com suavidade, sem afastar os olhos do pai Carlisle.
—Sim, Isabella —respondeu ele com seriedade.
—E como é possível que ele as conheça?
Mais insultado pelo fato de não ser tomado em consideração que pela clara insinuação de Isabella, Edward não pode conter-se e respondeu com tanto cavalheirismo como pode:
—A resposta é óbvia, lady Isabella, já que este pastor de Deus guia a seu rebanho com uma enorme força de vontade. Assombrariam-lhe se soubesse as horas que passa nos pregando a palavra do Senhor, do mesmo modo que eu quase me assombrei o dia que conseguiu que lhe recitasse os textos sagrados.
—Não se trata de recitar umas meras palavras, mas sim de que o espírito de Deus fluiu através de ti, Edward —o corrigiu o pai Carlisle com serenidade.
Isabella mal tinha olhado Edward enquanto ele falava, o qual não contribuiu para acalmar seu estado de ânimo.
—Recitam a palavra de Deus em... em campo aberto? —perguntou ela com incredulidade. Os caminhos de Deus eram inescrutáveis para todos exceto para os clérigos, ungidos do Senhor, escolhidos entre todos os homens para celebrar a solenidade da missa... ou pelo menos isso era o que haviam dito a Isabella.
De novo Edward respondeu em lugar do pai Carlisle.
—Em sua juventude, pai Carlisle passou bastante tempo com o grande professor Garrett Abélard —expôs Edward com um sorriso.
Depois daquela revelação, Isabella nem se alterou.
—Não ouvistes falar de Abélard? —perguntou Carlisle com grande surpresa.
—Não.
—Possivelmente terá ouvido falar de sua Eloísa...
—Edward! Não era sua Eloísa, a não ser a abadessa de Argenteuil, altamente respeitada...
—Sim, pai. —Edward sorriu — Entretanto, a lenda de seu amor ultrapassou as fronteiras da França...
—E agora já chegou a Inglaterra —resmungou Carlisle.
Edward realizou uma reverência teatral e murmurou:
—Peço-lhe desculpas, pai.
Entretanto, sua súplica não sortiu efeito ao ficar completamente desvirtuada por seu sorriso triunfal.
Isabella estava recebendo muita informação e de uma forma atropelada, isso era o que passava com Isabella. Abélard e Eloísa, que era ou possivelmente não era «sua» Eloísa. Toda a parafernália sobre ser inocente e pura, pulcra e imaculada... isso era o que lhe disparava o pulso com a celeridade de uma estrela fugaz. Quem teria pensado que um guerreiro arrumado poderia recitar as Sagradas Escrituras com tanta naturalidade? Muita informação para absorver, por isso lhe acelerava o pulso, por isso não conseguia respirar de forma pausada. Era o poder e a surpresa daquelas palavras de Deus do céu para o homem na terra, já que Isabella nunca teria imaginado que aquele deus dos céus se dedicasse a instruir a um marido para que amasse o corpo de sua esposa como o seu próprio. Devia ser por isso, já que como poderia Edward amar seu corpo e honrá-la e inclusive chegar a converter-se em «uma só carne»? Impossível! Impossível para ela, e totalmente impossível para ele. Isabella tinha que esclarecer suas ideias com respeito a aquelas palavras e com respeito ao amor e a segurança que pareciam prometer, já que aquele sermão não ia dirigido a ela. Se pudesse conservar o significado daquelas palavras no mais profundo de seu ser não a importunariam nem lhe roubariam sua resolução, sua vontade nem seu controle.
Se Edward fosse capaz de não voltar a sorrir, possivelmente conseguiria sobreviver.
Do torvelinho de emoções que a assaltavam, os dois homens só viram uma leve ondulação na superfície das águas, que rapidamente se aplacou para dar passo a uma superfície totalmente lisa. Edward não deixou que aquela impressão o desencorajasse, tinha visto o fogo em suas bochechas. Havia sangue naquele corpo, como em qualquer outro corpo criado pelo Senhor, e tinha a confiança de que poderia despertar esses sentimentos outra vez, com resultados mais doces.
—Certamente o jantar já estará preparado, milord —anunciou Isabella, e a seguir abandonou a capela e baixou as escadas com a esperança de que eles a seguissem. E assim o fizeram. Mas Edward não pode reprimir um gesto de desaprovação. Sua esposa era realmente rápida quando se tratava de dar ordens, e inclusive mais rápida na hora de assumir a obediência por parte de seu marido. Isso era o que acontecia quando uma mulher não se casava a uma idade mais jovem. Mas ela ainda não era muito velha para não aprender a lição, nem ele era muito velho para não poder adestrá-la.
Efetivamente, o jantar estava servido: vinho, ave, pão e queijo —suave, mas de agradável paladar — Entretanto, o realmente desagradável era a atmosfera.
Ao cair a noite, os serventes se mostravam mais nervosos que durante todas aquelas horas desde a sua chegada. Ao Edward pareceu uma reação curiosa. Por que estavam tão tensos agora? Justo depois de ter sido recebido com o devido respeito pela senhora do castelo, e agora que já se converteu em seu marido, e depois de ter dado boa conta do banquete de bodas —que, para falar a verdade, tinha sido um pouco exíguo — e depois de ter celebrado a missa? Entretanto, Edward podia notar a crescente tensão no ar, ou mais que uma simples tensão, um medo latente, e podia notar todos os olhos cravados nele enquanto jantava. Subitamente, elevou a vista e viu que John, o mordomo, olhava-o fixamente. O criado desviou rapidamente a vista, mas Edward ficou incômodo com aquela sensação de ser observado.
Edward confiava muito em seus sentidos.
Estavam preocupados de que ele estalasse furioso e montasse uma cena pela falta de comida na mesa? Edward não pensava ficar contando os pratos. A pobreza e as penúrias em Swan eram mais que óbvias, mas não queria que os criados soubessem que isso saltava à vista. Todos os homens tinham seu orgulho. O mais provável era que temessem que ele fizesse pedacinhos seu orgulho corrigindo-os pela falta de atenção que prestavam a Swan, seu novo lar. Qualquer comentário sobre a questão seria mal interpretado, seguro. Unicamente ficava ter paciência e esperar que o conhecessem melhor, só quando soubessem como pensava, sentiriam-se mais relaxados.
Entretanto, Isabella... mostrava tão pouca ansiedade e entusiasmo como um tedioso dia cinza. Por que não era possível que ela fosse um pouco mais emotiva e os criados um pouco menos nervosos? Observou-a enquanto comia como um passarinho da bandeja que ambos compartilhavam. Para ser uma mulher que se mostrava tão pendente da hora de comer, Edward teria esperado que tivesse mais apetite, entretanto só a viu ingerir um pouco de queijo, que engoliu com a ajuda de um sorvo de vinho, um bocado de pão e outro saudável sorvo de vinho. Quanto mais a observava, mais se convencia de que simplesmente comia para acompanhar os sorvos de vinho. Mas era realmente bela. E também parecia ter uma boa tolerância ao vinho, por mais que estivesse aguado e com tanto sedimento que Edward tinha que usar os dentes como barreira para que a boca não ficasse impregnada do amargo sabor dos sedimentos.
Quando Isabella tinha bebido sua quarta taça, Edward não pode seguir fingindo que não se dava conta da rarefeita atmosfera no salão. Sabendo que não obteria nenhuma resposta satisfatória por parte de sua esposa, deu-se a volta para homem que Isabella sempre parecia preferir sua companhia por cima de outros, o homem cuja lealdade para ele era indisputável: pai Carlisle.
—Perguntarei sem rodeios —começou a dizer com um tom pausado — E necessito que também me responda sem rodeios: O que te contou Isabella?
Carlisle, que se tinha posto a rezar depois de ver que Isabella ingeria sua terceira taça de vinho, voltou-se para Edward com olhos alarmados. Não queria iniciar essa conversação, de fato, tinha estado rezando para que seu esforço na capela tivesse servido ao menos para aplainar o terreno entre os recém casados. Não o surpreendia que Edward tivesse notado a tensão reinante, Edward era um guerreiro muito ardiloso para passar por cima aquele detalhe. O que o surpreendia era que Isabella estivesse se embebedando sem nenhum olhar, já que até esse momento tinha feito alarde de um extraordinário autocontrole, entretanto, posto que agora era conhecedor de todos os detalhes da história, sim que se maravilhava que ela fosse capaz de manter a calma sem que a traíssem os nervos. Aqueles pensamentos não paravam de dar voltas em sua cabeça como um par de serpentes instigadoras, por isso o único que podia fazer era continuar olhando Edward com cara de susto.
—Está Planejando beber até perder a consciência, para não ter que enfrentar a sua noite de bodas? —perguntou Edward em um sussurro, com os olhos acesos com um fogo reprimido.
Aliviado de poder responder com absoluta sinceridade, Carlisle respondeu:
—Não, Edward. Não está Planejando nada que possa por em perigo seu matrimônio. Lady Isabella foi educada como é devido e sabe que tem que acatar as ordens do rei. Expus-lhe as três perguntas e ela respondeu devidamente: a seus dezoito anos está totalmente capacitada para casar-se, não tem pais nem nenhum familiar que possa opor-se a sua união contigo...
—E o terceiro requisito? Dá ela seu consentimento a nosso matrimônio?
Carlisle assentiu sem duvidar, esperando apaziguar a ansiedade de Edward.
—Sim, deu seu consentimento livremente. O matrimônio é válido.
A resposta conseguiu aplacar a ira de Edward, ao menos momentaneamente. A Igreja estipulava que a menos que uma mulher a ponto de casar-se não respondesse as três perguntas corretamente, o matrimônio não seria válido. Tratava-se unicamente de uma tentativa de evitar que uma moça se visse forçada a casar-se com alguém que não era de seu agrado. Mas entretanto, pai Carlisle irradiava ondas de tensão.
—Não obstante, há algo a respeito dela que o preocupa, pai. —Provando a sorte às cegas, Edward perguntou — Se trata do defloramento da moça?
Pai Carlisle deu um pulo como se lhe acabassem de dar uma punhalada e olhou  Edward com os olhos tão abertos como um par de laranjas.
Edward não pode conter-se e sorriu levemente enquanto dava um tapinha a seu velho amigo no braço.
—Não se preocupe, pai. Irei com supremo cuidado. Lady Isabella não sofrerá nenhum trato agressivo por minha parte.
Carlisle considerou um momento as palavras que ia dizer:
—Edward, a mulher é sempre a parte mais fraca, tenho a esperança de que o recordará.
Depois  de escutar aquele conselho, Edward deu a volta para Isabella e descobriu que ela se pos de pé e que tinha iniciado seu caminho para as escadas. Tinha chegado a hora de retirar-se. Ela abriu passo entre seus serventes —ou melhor dizendo, os serventes de Edward, agora— que não afastavam a vista de sua senhora. Com passo comedido e a cabeça altiva, Isabella abandonou o salão, com o pesado traje branco arrastando-se a seus pés. Edward não tinha vontade de ficar debatendo com pai Carlisle, mas pensou que sua esposa era tão fraca como uma barra de ferro.

Isabella afastou a cortina que ocultava a porta e entrou no quarto principal. A cama se destacava no centro, com um aspecto muito distinto ao que tinha a última vez que a tinha visto. Estava esplendorosamente coberta com um belo tecido confeccionado com tiras de seda de cor escarlate, amaranto e dourado. Era uma cama que falava eloquentemente  ser o leito de um lorde poderoso. Era uma cama preparada para manter o calor do fogo e do corpo. Oferecia um aspecto mais elegante agora que quando sua mãe e seu pai se deitaram nela. Rosalie, que tinha estado esperando nervosamente a sua senhora desde o início do jantar, precipitou-se para ela e começou a ajudá-la a despir-se. Ainda havia um pouco de luz natural, por isso de momento não necessitavam velas. O sol enviava seus últimos raios mortiços através das copas nuas das árvores até o rio, criando umas curiosas sombras no robusto teto da habitação. Ao entardecer se começaram a apagar os contornos da terra sonolenta e as cores começaram a sangrar, até que todas as árvores e arbustos ficaram mascarados em uma sórdida cor cinza. Quando o céu estivesse totalmente escuro, iniciaria-se a noite de bodas.
—Ele arrumou a cama com os tecidos que trouxe de suas viagens —comentou Isabella.
—Sim, enviou seu escudeiro para que fiscalize o trabalho —remarcou Rosalie — Como se chama essa cor, que tem um tom mais vermelho intenso que violeta?
—Chama-se amaranto —respondeu Isabella.
—Lorde Edward tem gostos nobres.
—Lorde Edward tem gostos caros —a corrigiu Isabella.
—Pediu-lhe ele que subisse à habitação? —sussurrou Rosalie com um tom angustiado.
—Não —repôs Isabella com rosto inexpressivo, então acrescentou secamente — mas não consigo compreender o que pensava.
—Ai, senhora! —lamentou-se Rosalie sem poder ocultar sua pena — Chega o momento que tanto temi desde que ouvi falar deste matrimônio convencionado. Seu valor me assombra e me assusta de uma vez, porque embora o dia trouxe o matrimônio, a escuridão traz a noite de bodas.
Devia ser a considerável quantidade de vinho que tinha ingerido sem mau provar algo, ou possivelmente os tênues raios moribundos do sol que começavam a retirar-se da habitação, mas Isabella se deu conta de que não suportava seguir ali pSamtada escutando os lamentos de Rosalie, por mais que soubesse que sua criada não albergava nenhuma intenção maliciosa de desestabilizá-la. Tinha os nervos crispados e tensos como as cordas de um alaúde, o que precisava era unir as poucas reservas de força e calma que ficavam, após um dia tão longo. Senão, não sobreviveria. Necessitava que Rosalie trocasse de tema, que deixasse de falar da noite de bodas.
—Obedecer as ordens do rei não é um ato de valor Rosalie, e isso é unicamente o que tenho que fazer: acatar ordens. Mas me diga, suponho que terá passado grande parte do dia espiando aos recém chegados, escondida entre as sombras. Sabe como Edward, o Brouillard obteve o apelido de Névoa?
Se fosse a noite de bodas de Rosalie, a última pessoa no mundo da que ela teria querido falar seria de seu marido guerreiro, que podia aparecer a qualquer momento na habitação, mas ela não era lady Isabella. Se sua senhora desejava saber mais coisas sobre o senhor com o que se acabava de casar, então Rosalie estava disposta a contar tudo o que tinha averiguado pegando a orelha às paredes.
—Dizem que é silencioso no campo de batalha, que não grita nem ruge como outros cavalheiros fazem para esquentar o sangue e infundir medo ao inimigo. Além disso —acrescentou com voz insegura, demonstrando que não se sentia cômoda com o tema — rodeia e assalta a seu adversário com sigilo e completamente em silêncio como a névoa envolve os campos.
—Por isso o apelido de Névoa —concluiu Isabella brandamente, logo acrescentou quase em um murmúrio — Pensava que recebeu o apelido pela cor de seus olhos.
Rosalie não disse nada mais, deu-se conta de que sua senhora estava absorta em seus pensamentos, apesar de que não podia adivinhá-los. Isabella elevou a cabeça expeditamente e voltou a falar:
—Mas segue me contando mais coisas. Seguro que sabe mais que eu, já que nenhum de seus homens se atrevem a me falar dele como o fariam entre eles tranquilamente, e me interessa saber quantas mais coisas melhor a respeito dele.
Rosalie não sabia nada mais, embora acreditou que não era precisamente mais informação o que lady Isabella procurava. Rosalie não tinha conhecido Edward, o Brouillard de forma comum, mas sim tinha ouvido comentários por aqui e por lá escondida nos rincões, enquanto os cavalheiros do senhor se instalavam em Swan. Para falar a verdade, tinham estado a ponto de descobri-la em mais de uma ocasião, mas tinha conseguido escapar graciosa. Se o orgulho não fosse um pecado mortal, Rosalie teria se sentido muito orgulhosa de sua habilidade de esconder-se em lugares que não ofereciam muitos esconderijos.
—A maioria dos comentários se referiam a suas habilidades, milady.
—Que certamente é o que se pode esperar entre cavalheiros —respondeu Isabella.
—Mas ouvi algo a respeito de...
—Fala —a exortou Isabella com calma — Estou segura de que tudo o que possa me dizer me interessa.
—Todos ressaltam suas habilidades na guerra —começou a dizer Rosalie, sem poder ocultar seu mal-estar — Lutou na Terra Santa e em muitos lugares mais, tanto na Inglaterra como em outros países, e sempre saiu vitorioso. Por esse motivo o rei Aro o valora tanto, por isso e por sua lealdade. —Ao ver que tinha toda a atenção de Isabella, Rosalie continuou com mais confiança — Perdeu as terras de sua família, na Normandía, porque seu pai estava no bando dos perdedores. Por isso passou a infância vagando de um lugar a outro, e desde muito jovem demonstrou sua obsessão por possuir terras. O rei sabia, de fato ouvi que qualquer que tenha passado um tempo com ele, por pouco que seja, conhece a avidez de Edward, o Brouillard por possuir terras próprias. O rei Aro lhe concedeu Swan como recompensa por seus serviços.
Rosalie não disse nada que Isabella não soubesse ou que não tivesse averiguado astutamente, o certo era que a história pessoal de Edward não diferia da de outros cavalheiros, entretanto, ao escutar aquelas palavras —ao escutar que o rei lhe tinha concedido Swan como recompensa— Isabella sentiu uma irritação que não pode conter.
—Assim —começou a dizer Isabella, tentando ocultar sua dor — o rei lhe concedeu Swan, e com o pacote de Swan vem a senhora do castelo.
Rosalie se deu conta imediatamente de que tinha cometido um engano ao narrar o que sabia, já que lady Isabella nunca antes tinha mostrado nem um ápice de suas emoções mais profundas do modo que o estava fazendo agora. Ter que entregar Swan a um desconhecido já era suficientemente doloroso; ter que entregar as terras e de uma vez saber que também tinha que se entregar como parte do trato, mas com um mínimo valor, era muito pior. Entretanto, Rosalie não comentou nada, simplesmente se desviou do tema como se não o tivesse mencionado.
—Deseja tomar um banho, milady?
Rosalie não sabia, mas com aquela pergunta tinha dado a sua senhora a desculpa para recuperar a compostura. Gostaria de banhar-se, sabendo a importância que seu marido outorgava à higiene pessoal? Sabendo que tinha ordenado a ela que todos os habitantes de Swan se banhassem?
Com um sorriso sereno, Isabella respondeu:
—Não.
E mal respirando, acrescentou:
—E tampouco banhe-se você, Rosalie. Dedique-se a seguir te ocultando da vista de todos, desse modo poderei averiguar mais coisas por parte dos homens do Brouillard.
—Senhora —começou a dizer Rosalie, visivelmente incômoda — ele é seu marido e seu senhor. É correto que se refira a ele com esse trato de cortesia?
Provavelmente não o era, mas não importava, e a enorme tensão que acumulava Rosalie estava provocando uma intensa exasperação que não podia dominar. Desejosa de ficar só para acalmar-se, pronunciou as palavras necessárias que lhe proporcionariam a solidão procurada:
—Rosalie, ajudaste-me a me distrair enquanto me preparo para me deitar, mas sabe que agora deve partir para que o senhor não te encontre nas escadas.
Não teve que dizer nada mais. Com seus olhos azuis tão redondos como pratos e desmesuradamente abertos como os de uma coruja, Rosalie saiu disparada da habitação, fechando a porta brandamente a suas costas. A cortina apenas se moveu.
Quase já não ficava nada por fazer. Isabella foi para o tamborete estofado, sentou-se frente ao fogo e começou a desfazer as tranças com dedos hábeis. Tomou um pente de marfim, uma das escassas posses que ainda ficavam, e o deslizou por seu longo cabelo, colocando as pontas sobre seu colo para que não pendurassem sobre o chão. Normalmente era uma tarefa que gostava. O rítmico movimento repetido de pentear o cabelo era um ato que a relaxava, além disso, adorava a sensação de seu cabelo solto sem nenhuma atadura. Entretanto, aquela noite não conseguiu relaxar. Estava muito tensa.
Quando ouvia passos nas escadas ou o ruído de uma porta ou o menor movimento da cortina, dava um pulo alterada. Mas os minutos foram passando e ela permanecia sozinha na habitação. Aquela intimidade não podia durar muito. Tinha compreendido as intenções nos ardentes olhos cinzas do Brouillard. Ele não demoraria a subir.
Depositando o pente cuidadosamente no assento da banqueta, correu para a cama e de um salto se encarapitou e se sentou com as costas completamente erguida. No meio da cama, sentia-se verdadeiramente minúscula.
Quando ficaram gelados os pés, meteu-se sob os lençóis e os esticou ao redor de seus quadris. Ao princípio se dedicou a contemplar o fogo. A habitação estava em uma absoluta penumbra agora, exceto pelo fogo aceso que iluminava a soleira da porta.
Edward chegaria a qualquer momento, aquele indivíduo chamado de Brouillard, que era tão silencioso quando enfrentava o inimigo. E como enfrentaria a ela? Se ele se comportava de um modo sigiloso, significaria isso que a via como uma inimizade? Pelos olhares que lhe tinha dedicado na mesa, parecia que se reconciliou com ela. Desejava-a, isso era óbvio, mas a desejava unicamente para passar uma noite desenfreada ou a desejava como a uma verdadeira esposa? Isabella não era tão inocente que não compreendia que uma esposa podia ser unicamente um corpo quente com a missão de engendrar herdeiros para seu marido. Ela sempre tinha desejado algo mais que isso, mas quando tinha deixado correr a imaginação com aquele sonho, ainda não era a esposa do Brouillard. Desejava uma união mais espiritual, mais completa com ele?
O silêncio de sua alma era a única resposta em que podia confiar.
Isabella não sabia quanto tempo passou contempSamdo o fogo e pensando em Edward, mas quando caiu na conta, o fogo virtualmente se extinguiu e só ficavam umas poucas brasas incandescentes. Já era noite fechada. Girou a cabeça para olhar para a porta, quase esperando ver seu marido ali pSamtado, mas não viu ninguém. Como era possível que se atrasasse tanto em sua noite de bodas? Que homens mais estranhos, aqueles normandos! Não se pareciam em nada ao que os trovadores cantavam sobre eles.
«Malditos sejam os homens!», resmungou para si. Isabella não podia —e não pensava— ficar ali sentada como uma apalermada esperando que lhe desse a estocada de graça. Arrastou-se até a borda da cama e de um salto ficou de pé no chão e correu para a lareira em busca do calor do fogo, mas não podia estar quieta. Começou a perambular pela habitação, com passo tranquilo, sereno, elegante, e de repente se deu conta de que ao andar se relaxava, desse modo podia descarregar lentamente seu excesso de energia. Mas o insuportável frio nos pés a obrigou a retornar à cama, em busca de uma relativa calidez, e se meteu sob os lençois, desta vez sem prestar tanta atenção para não enrugar a colcha como o tinha feito antes.
Quanto tempo tinha passado? Certamente todos deviam estar já na cama. Não se ouviam nem risadas nem gritos nem nenhum outro ruído, e então pensou que tinha sido um banquete de bodas muito tranquilo. Poderia-se dizer que inclusive sombrio. Bom, isso não importava. A comida estava bem feita e tinha sido apresentada com esmero, apesar de que a quantidade não fosse abundante. Os criados não tinham que envergonhar-se de nada. E ela? Ela que tinha usado um singelo traje de lã branco no dia de suas bodas enquanto seu prometido tinha exibido objetos dignos de ser luzidos na corte real? Não, ela tinha posto seu melhor vestido. E agora tocava a noite de bodas. Tinha realizado um enorme esforço para afastar aquele pensamento de sua mente do momento em que recebeu a mensagem de seu iminente matrimônio da paliçada, e agora tinha chegado o momento. Agora não podia pensar nisso.
Edward era um homem alto e musculoso, aquele desconhecido que já virtualmente era dono e senhor de Swan e dela. Ele tinha desejado suas terras. Mas e a Isabella? Inclusive após as palavras de Rosalie, não precisava perguntar a si mesma. O desejo carnal que tinha visto nos olhos de Edward não deixava dúvidas. Mas o que aconteceria depois da noite de bodas?
A pesar do frio, Isabella saltou outra vez fora da cama. Não procurava o calor do fogo, já que não podia obrigar-se a estar quieta de pé perto da lareira. Como um animal enjaulado, percorreu todos os rincões da estadia, com passo ágil e com o cabelo solto caindo em cascata sobre suas costas como um estandarte dourado de guerra.
Não, ele não desejava uma esposa, embora ante o presente de uma mulher ele não se voltaria de costas após um frio dia montado a cavalo. Swan tinha sido seu objetivo e isso era sua recompensa —um presente por um serviço leal — O que importava se ela era parte do pacote, naquele prêmio? Que importância tinha? Nenhuma! Era uma questão absurda inclusive de contemplar. Ela e Swan eram uma só unidade. O haviam dito muitas vezes e ela assim acreditava, como não ia acreditar quando possuir Swan significava possuir a Isabella? E o Brouillard tinha aberto uma brecha nas defesas externas de Swan do mesmo modo que logo subiria as escadas de dois em dois para abrir uma brecha na barreira final: a que ela possuía entre as pernas. OH, sim, ela e Swan eram uma unidade que compunham o prêmio sem voz que ia ser entregue ao guerreiro mais forte. De repente teve uma visão de si mesma como uma bandeja cheia de carne suculenta que os diversos comensais de uma mesa iam passando-se, uma bandeja que se oferecia a todo aquele que tivesse uma mão livre.
E sem que se desse conta do que estava passando, seu controle, o controle pelo que se guiava e que de uma vez a protegia, rompeu-se. Igual ao gelo se rompia e se desfazia sob o calor do sol, sua integridade se quebrou, e se sentiu tão indefesa que não teve forças para tentar recompor-se.
Naquele instante, alguém afastou a cortina, e Edward, o Brouillard fez sua aparição no quarto.
Uma repentina labareda fugaz entre as brasas foi a única pista que Isabella teve de que algo tinha mudado na habitação. Ao dar a volta, seu cabelo a rodeou formando uma nuvem dourada. Isabella possuía tão pouco controle de suas emoções como um animal encurralado, e toda sua fúria desbocada e seu frustrado desespero se refletiu nas escuras profundidades de seus olhos castanhos.

De todas as possíveis reações que Edward teria imaginado por parte de sua esposa, essa não era nenhuma delas, e por um momento, não reconheceu à mulher que estava vendo. Ela era Isabella de Swan, a dama carente de toda emoção, como uma terra esperando tranquilamente que a perfurassem com o arado. Isso era o que supunha dela. Entretanto ali estava, com os punhos crispados, respirando ruidosamente e com os olhos acesos com um estranho fogo líquido.
Edward entrou na estadia com passo lento e com uma perceptível cautela. Não desejava alarmá-la. Ela era sua esposa há apenas umas horas, e agora enfrentava ao duro momento da noite de bodas. Sua condição de virgem a mantinha naquele estado de enorme tensão, por isso ele tinha que atuar com uma enorme gentileza, tal e como tinha assegurado pai Carlisle.
Ela não tirava os olhos de cima. Observava-o com tanta desconfiança como qualquer adversário que ele enfrentou no campo de batalha. A comparação não agradou absolutamente Edward. Ela era sua esposa. Ele não pretendia iniciar seu matrimônio, sua união, como adversários. Avançando para o fogo e para ela, observou-a enquanto Isabella também o observava. Fixou-se que ela retrocedia à medida que ele aproximava, e também se fixou no brilho que brilhava em seus olhos escuros.
Com um movimento sutil, Edward tirou o broche com o rubi que lhe sustentava a capa sobre os ombros sem afastar a vista dela, do mesmo modo que fazia Isabella. Ela retrocedeu um passo mais e elevou o queixo com altivez. Pelo visto estava disposta a não fazer nada fácil.
«Mas que bela é», pensou Edward, e aquela nova faceta de sua esposa, uma faceta que ele não tinha esperado, só serviu para incrementar seu apetite voraz por ela até um ponto inusitado. Os olhos de Isabella brilhavam perigosamente. Seu longo cabelo lhe caía até os joelhos e cobria sua estilizada silhueta como uma valiosa capa dourada. A fina regata de linho que levava não ocultava a esbeltez de seu corpo, particularmente porque a tênue luz alaranjada do fogo estava justo atrás dela. Seu seio, comprimido pelo ligeiro tecido, subia e baixava como se acabasse de correr uma inacabável corrida. A escura sombra de seus mamilos era completamente visível. O desejo que tinha sentido por ela durante o jantar se acrescentou desmesuradamente.
Isabella leu seu desejo tão claramente como se ele o tivesse expresso com palavras.
—Aqui chega o conquistador para reclamar sua vitória final, sua vitória mais fácil —sentenciou ela, com uma tensão e amargura impossíveis de ocultar.
Edward se deteve um instante ao ouvir aquelas palavras, então tirou a capa e a atirou em cima da arca com uma rudeza intencional.
—O conquistador chamado Edward já deixou seu rastro neste território —respondeu com suavidade — Me chamam Névoa, e estou aqui como seu marido. —aproximou-se um passo mais — Não vim com intenção de conquistar.
—Mas entretanto não lhe importa exigir o que lhe corresponde por direito de conquista. —Isabella acabou a frase por ele, sem mover-se, ao lado da lareira.
Edward continuou contempSamdo seu rosto, tentando ler a tortura que escutava em suas palavras, entretanto, o único que via era seus olhos escuros e a fina cicatriz sobre sua sobrancelha. Movendo-se com extrema cautela, desabotoou o cinturão e o depositou aos pés da cama. Suas seguintes palavras foram tão lentas e medidas como seus movimentos.
—Um marido tem todo o direito de reclamar a atenção de sua esposa, especialmente no dia de suas bodas.
Edward tirou a túnica e a depositou em cima de seu cinturão, reveSamdo seu largo torso e seus estreitos quadris, e o espaço intermediário coberto por um pêlo negro e encaracolado. Até esse momento, Isabella tinha respirado com dificuldade, mas agora quase se afogava. Ele parecia uma estátua esculpida em que o escultor tinha desejado ressaltar unicamente seus magníficos músculos, dos ombros até os braços e do peito até o ventre. Chamar um homem assim Névoa resultava ridículo em extremo, tudo nele era tão sólido como uma pedra. E sua beleza —porque realmente Edward era belo— provocou que Isabella se assustasse ainda mais.
—E se me nego a satisfazer seu direito? —espetou ela — Porque me parece mais uma conquista final, e considero que já desfrutaste de sua cota de vitórias por hoje.
Ele tinha prometido tratá-la com absoluta consideração. Era uma promessa feita com suas melhores intenções e por uma causa nobre: acalmar uma donzela aterrorizada pelo fato de perder sua virgindade. Mas a mulher que enfrentava agora e que lhe falava em termos de conquista e de vitória e de direitos a reclamar, estava o desafiando sem nenhuma razão aparente.
Naquele instante, Edward pensou em Margret, tentando que a lembrança de sua beleza virginal acalmasse sua impaciência, Edward inalou ar para aplacar sua excitação. Tinha a determinação de não mostrar a sua esposa nada mais que não fosse sua cavalheiresca gentileza. Pensava tratar Isabella com toda a ternura que merecia uma recém casada.
Ela era uma mulher recém casada, mas acaso ele não era um homem recém casado? Não tinha direito de proteger seus direitos por lei com a mulher com a que acabava de unir sua vida? Ela sabia o que lhe esperava, sabia o que significava ele querer consumar seu matrimônio. E com aquele pensamento voltaram a despertar seus medos.
Do momento em que a tinha visto de pé no pátio para lhe dar a bem-vinda sozinha, Edward não confiou em suas intenções nem em suas amostras de submissão ante o fato de que ele se convertesse no lorde de Swan. Pelo visto, ela não tinha intenção de consumar o matrimônio, e por conseguinte este ficaria invalidado. Era uma forma maliciosa e traiçoeira de anular seu direito de reclamar Swan, e de uma vez  conseguir a nulidade de seu matrimônio. Edward perderia a propriedade —e a ela— irremediavelmente. Não podia permiti-lo.
E com aquele pensamento, teve a certeza de que pai Carlisle não tinha contado tudo o que sabia com respeito a Isabella.
—Não, Isabella —disse com impulso, como se tentasse esclarecer sua própria mente— Ainda fica uma vitória por ganhar hoje, se assim prefere denominá-la, e não permitirei que me seja negada.
Enquanto falava, acabou de tirar o pouco que ficava de seu elegante traje. Em questão de segundos, ficou diante dela tão nu como o dia em que sua mãe o viu nascer, salvo por uma diferença: parecia que seu pênis, ereto e grosso, tentasse apontar ritmicamente para ela como uma espada cuja intenção fosse encontrar o ponto débil do adversário.
Isabella olhou primeiro para aquela espada ameaçadora e logo elevou a vista para cravá-la naqueles olhos cinzas como o chumbo. Então, sem poder se reprimir, começou a rir com gargalhadas histéricas.
—Não o duvido. —Riu ela, e o som subiu até o teto — Sabia, mas ao menos tinha a esperança, porque lutastes e venceu contra piores adversidades que as que eu possa oferecer. —Abrindo os braços de par em par, retrocedeu um passo mais — Acaso não obtiveste Swan? E posto que Swan já é sua propriedade, então eu também lhe pertenço, mas se quiser esta última vitória, asseguro-lhe que não terá sabor de mel. Possivelmente porque eu não sou um prêmio tão doce como Swan!
Edward se equilibrou sobre ela e a agarrou pelos braços com a intenção de imobilizá-la. Com força, mas com cuidado de não lhe machucar, atraiu-a para ele e seu membro viril ficou pego a seu corpo feminino.
—Por que diz que não é tão doce? —repetiu ele com voz rouca — Não, Isabella, você é muito mais doce que Swan.
Desta vez Edward não ofereceu nenhum beijo de paz a não ser um beijo de guerra, uma guerra que ele pensava ganhar, e a nenhum dos dois ficava a menor duvida com respeito a isso. Mas o que realmente pegou Isabella despreparada foi aquela guerra estratégica contra sua resistência, porque Edward não teve que lutar muito, apesar de  estar preparado para fazê-lo se era necessário. Não, ele não se moveu diretamente para sua boca —acaso temia que ela o mordesse?— mas sim depositou seus lábios no ponto tenro perto do lóbulo de sua orelha. Deslizou as mãos pelos braços delicados até acariciar seus seios com um movimento sedutor, e enquanto que com os dedos polegares brincava com seus mamilos, com a boca, mais cálida agora que antes, começou a percorrer um caminho ao longo da linha de seu queixo. Ela tentou afastar-se, lutando contra a embriagadora investida daquelas carícias e emoções, pressionando com força seus braços contra o amplo peito dele, como se fossem seu escudo. Ele não se moveu. Isabella tampouco albergava esperança alguma de que ele fosse afastar-se, mas era o único que podia fazer: resistir. E se manteve com os olhos desmesuradamente abertos. Ele não a venceria. Ela não se perderia no poço de sensações que ele estava tentando despertar. Ela era Isabella de Swan e não se derreteria ante ele.
A boca de Edward, movendo-se constantemente, alcançou a sua, e a seguir ele ocupou a posição estratégica. Seu esforço valia a pena por sua persuasão e perseverança, mas ela mantinha os lábios fechados, sem importar todas as coisas que Edward estivesse fazendo com sua língua e sua respiração para seduzi-la. Não pensava lhe dar de presente nenhuma vitória doce, unicamente o amargo fel que enchia sua própria boca.
Finalmente, Edward compreendeu que a vitória não ia ser possível, que ela não ia sucumbir a suas carícias nem entregar-se a ele com calidez e suavidade. Edward tinha a pequena satisfação de saber que a Isabella que ele conhecia era assim, em realidade. Não haveria acordo, aquela noite não ficaria mais remédio que tomá-la a força. Ela seria dele tanto se queria como se não, apesar de sentir asco, porque ele não pensava ceder seu direito a ser lorde de Swan. Além disso, com a devida prática, possivelmente acabaria por lhe pegar gosto.
Edward pressionou seus lábios contra os dela e se abraçou a seu corpo. Ela arqueou as costas tão violentamente para separar-se dele que Edward se perguntou se não seria capaz de automachucar-se antes de submeter-se a suas carícias. Mas ela permanecia calada, igual a ele. Aquela batalha, porque não se podia denominar de nenhuma outra maneira, estava se levando a cabo em silêncio. Um silêncio desesperado.
Ele não podia fazer nada mais. Tinha chegado a hora de penetrá-la. Era melhor passar aquele mau momento o mais rápido possível. Já encontraria o prazer nas subsequentes vezes que se deitasse com ela.
Empurrando-a sobre a cama, Edward se tombou em cima dela, imobilizando-a com o peso de seu corpo. Novamente tentou despertar o prazer sensual nela beijando-a, lhe acariciando meigamente com as gemas dos dedos o pequeno buraco pelo que ia penetrá-la. Isabella estava tão seca e rígida como um osso. E entretanto, seguia olhando-o com os olhos completamente abertos e infestados de pânico. Edward sentiu compaixão por ela.
Aquela compaixão que começava a alagá-lo e aqueles olhos olhando-o com tanto horror começaram a surtir efeito: irremediavelmente, ele notou que sua excitação se aplacava.
Resmungando uma maldição entre dentes, Edward lhe arrancou a regata de um puxão, e ficou um momento encantado pela delicada formosura de sua dourada nudez, procurando não olhá-la aos olhos se por acaso ela conseguia novamente aplacar sua excitação.
Isabella era uma verdadeira beleza com proporções perfeitas e uma atrativa magreza —bom, possivelmente um pouco excessiva — A ela convinha comer mais e beber menos vinho. Mas seus seios eram dois montículos de deliciosa redondez que acabavam em pico e que tinham um tamanho generoso e a cor do mel rosado. Seus mamilos eram grandes e ocupavam uma ampla extensão, apesar de sua aparente falta de estímulo. Devorando-a com o olhar, Edward notou como seu pênis voltava a ficar duro e o pressionou contra a suave pele do interior daquelas coxas femininas. Tinha chegado a hora.
—A primeira vez te doerá um pouco —disse ele brandamente, com uma voz pausada— Deixa que superemos a primeira vez.
Enquanto isso, ela lutava debaixo dele, lhe cravando as unhas e retorcendo-se como um animal ferido para que ele soubesse que estava disposta a derramar o sangue dele antes que Edward derramasse o seu. Tão desmesurada era a energia que lhe provocava o pânico que sentia que quase conseguiu jogá-lo da cama. Pouco a pouco, Isabella ia perdendo as forças de tanto lutar. E Edward também estava se cansando, mas de aguentar. O matrimônio tinha que consumar-se. Swan era dele, e o mesmo aconteceria com Isabella.
—Temos que consumar este matrimônio! —proferiu Edward irritado, abrindo espaço entre as pernas dela, apoiando todo o peso de seu corpo contra o dela para que Isabella não pudesse mudar de posição. Quando ela o atacou dando-lhe um murro em pleno rosto, lhe imobilizou as mãos por cima da cabeça com uma só de suas gigantescas mãos, enquanto que com a outra a obrigava a abrir mais as pernas. Isabella estava perdida.
Com uma investida a violou, e então rugiu como um leão. O retumbante rugido ressonou nas quatro paredes da quarto. Mas seu grito não foi de êxtase nem de vitória.
Isabella de Swan não era virgem.

Ela permanecia imóvel debaixo dele, como um cadáver. Tinha os olhos muito abertos e fixos no teto, com o olhar perdido. Estava escancarada sobre a cama desfeita e tinha as mãos tensas e crispadas sob o punho implacável de Edward. Não sentia nada, e pensou que essa sensação era o que alguém devia sentir quando estava morto.
Edward, em troca, sentia-se transbordado pelos sentimentos. Seu pênis voltava a estar flácido, e desta vez não lhe importava, o matrimônio se consumou. Separou-se dela e se levantou da cama, apressando-se a vestir-se. Não a olhou. Pensou que se o fazia, possivelmente a mataria.
Ela já tinha estado com outro homem.
Uma sensação de fúria e de traição se apoderou dele. Tinha acertado ao suspeitar que ela o traía. Seus instintos jamais falhavam, mas como desejava —e não era a primeira vez— que seus instintos pudessem ser mais específicos.
Ela tinha se deitado com outro homem. Um como mínimo. Mas se o tinha feito com um, também podia haver-se deitado com mais. Como seria? Uma vez quebrado o hímen, com quantos tinha fornicado?
Edward se aproximou da lareira e fixou a vista no mortiço resplendor das últimas brasas, com seu corpo tão gelado como seu coração. A que classe de mulher se uniu para o resto de seus dias? Embora não tinha que fazê-lo. Podia solicitar a nulidade de seu matrimônio. Sua esposa não era virgem a noite de bodas. O próprio Papa lhe daria  razão se pedia a nulidade.
Mas então perderia seu direito sobre Swan. Aro tinha deixado claro que Swan e Isabella iam unidos. Rechaçar Isabella significava perder a propriedade. Importava-lhe tanto a traição de sua esposa para estragar tudo aquilo pelo que sempre tinha lutado?
Deu a volta para olhá-la. Ela não se moveu. Permanecia deitada sobre a cama com os braços e as pernas abertas, sem mostrar nem um ápice de vergonha. Seus olhos eram tão serenos e tão secos como os de qualquer meretriz de porto, e igualmente frios.
Não, não valia a pena perder nem um segundo mais pensando nela. Swan era agora dele e assim permaneceria.
Edward atravessou a habitação, passou por diante da cama e saiu para a porta coberta pela cortina. Não a olhou nem uma só vez. Possivelmente era melhor, já que a frieza de seus olhos a teria fulminado imediatamente.
Quando chegou à soleira se deteve e, sem dar a volta, notificou-lhe friamente:
—Não sentia desejo algum de te possuir esposa. Swan era o prêmio. Posto que Swan e você vão unidos, não te rechaçarei porque desejo seu castelo, sua gente e suas terras.
A seguir, abandonou a estadia.
Isabella perdeu a conta de quanto tempo tinha passado desde que Edward tinha abandonado a estadia. A habitação estava fria e completamente às escuras, a única luz procedia agora da tocha pendurada na soleira da porta. Lentamente, se aconchegou formando um novelo no centro da cama, de costas à luz.
Abraçando-se com tristeza, começou a tremer. Eram uns tremores que nasciam do mais profundo de sua alma e que lhe provocavam um incontrolável bater dos dentes.
Ao recordar as amargas palavras de Edward, sussurrou na escuridão:
—Sabia. Sabia que só lhe importava Swan.
As lágrimas rodaram silenciosamente por suas bochechas, formando uma rota reta e inextinguível, até que foram absorvidas, também em silêncio, por seu cabelo despenteado.

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